Tiago Queiroz/AE
Tiago Queiroz/AE

Carros ''híbridos'' resistem na periferia

Com peças de modelos e marcas diferentes, eles têm geralmente vários anos de uso e mostram os ''jeitinhos'' encontrados por motoristas para continuar circulando na cidade

Paulo Sampaio, O Estado de S.Paulo

20 Julho 2011 | 00h00

No mundo automobilístico moderno, a expressão "carro híbrido" designa modelo equipado com dois motores - à combustão e elétrico. Em bairros distantes do centro de São Paulo, o termo serve também para definir carros como o Chevette 1986 do técnico de manutenção Darlan Silva dos Santos, de 26 anos, morador da Vila Zilda, extremo da zona norte.

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O Chevette tem maçanetas de Variant, faróis de milha de Corcel, volante de Corsa e, na parte lateral direita da lataria, ostenta um distintivo com a palavra Diesel (o carro é a álcool). "Vou levar pro Luciano Huck", diz Darlan, rindo, referindo-se ao quadro Lata Velha. Amigo de Darlan, o produtor gráfico Gleidson dos Santos, de 36, é, por sua vez, dono de uma Ipanema preta com rodas de Monza, que tem na porta traseira um adesivo com os dizeres "Never Forget Jesus". Está à venda por R$ 6 mil.

A Expedição Metrópole percorreu diferentes pontos da periferia da cidade para ver até onde vai a criatividade dos motoristas e explorar modelos que, mesmo sem serem novos, não deixam de ser novidade.

Brasília da vovó. Os mais votados: Fusca 1974 "picape", com uma caçamba de tábuas adaptada; Veraneio "anos 70" cor original caramelo, atualmente dourada; Brasília 78 vermelha "toda nova" (depois da terceira retífica no motor)."Foi da minha avó, da minha mãe e agora está comigo", diz o veterinário Alan Cirillo, ao fim de uma estrada de terra inteiramente esburacada em Marsilac, no extremo da zona sul.

Ao volante de um carro do ano, o motorista da reportagem come poeira atrás da Brasília: "Nessa estrada aqui, eu sou mais ela", diz.

De acordo com o Detran, há no Estado de São Paulo mais de 10 milhões de carros com ano de fabricação anterior a 2001. Mas, lá onde o asfalto é (ainda mais) castigado, os veteranos encontrados pela Expedição datam de antes de 1995. Muitos em pedaços, ou com o eixo apoiado em paralelepípedos, aparentemente abandonados.

Por causa dos motores bastante rodados e equipados com componentes como carburadores, anteriores à ignição eletrônica, o número de oficinas mecânicas supera o de cabeleireiros, escolas e até de igrejas evangélicas. Só no caminho entre Marsilac e Interlagos, na zona sul, a reportagem contou mais de 70 - contra 27 cabeleireiros, 28 igrejas e cinco escolas.

Transplante. De acordo com Cristiano de Souza, de 31, que tem oficina no Jardim Almeida, também na zona sul, os principais problemas dos carros ali estão relacionados à poluição provocada pelo motor, suspensão, bomba de gasolina e carburador. No momento, ele tem como "clientes" um Santana 1995 com 140 mil quilômetros rodados, um Gol 1996 com 150 mil km e um Vectra 1997 "fazendo o motor".

"Às vezes, é preciso adaptar peças que nem existem mais. Então a gente pega de um modelo bom e coloca em outro", diz Cristiano, que tem um Opala 1979, ao qual é apegadíssimo.

Um elemento que atrapalha na contagem das oficinas pelo caminho são os desmanches - muitas vezes, é difícil discernir uma coisa da outra. Édson Forggi, de 59, dono de uma mecânica em Cidade Líder, na zona leste, fala com amargura que cobra R$ 2,5 mil por uma retífica, enquanto os desmanches vendem motores inteiros por R$ 600. "O que você vai preferir?"

Ele diz que não é difícil emplacar um "híbrido" na inspeção veicular. "Os caras olham o motor superficialmente, são treinados para trabalhar apenas na máquina que eles operam. Então, se você aparece sem um dos dois parafusos do filtro de ar, é reprovado. Mas, se você muda o virabrequim de um carro 1.6, o cabeçote e o pistão, e o transforma em 1.8., ninguém repara."

Forggi aponta para um Fiat Prêmio 1993 a gasolina e diz que, quando quer que o carro passe pela inspeção, coloca 20% de álcool. "Isso limpa os gases emitidos", garante.

Eduardo Rosin, diretor executivo da Controlar, empresa responsável pela inspeção veicular, diz que a tal "limpeza" com álcool é uma "lenda urbana". "Não faz o menor sentido, nem do ponto de vista químico, nem do funcionamento do motor", afirma.

Feliz proprietário de um Santana 1991, o motoboy Clóvis Souza, de 32, explica que seu carro completou 20 anos e está isento de inspeção. Souza, que ganha R$ 2 mil por mês, diz que já gastou R$ 10 mil no carro, avaliado em R$ 7,8 mil: "Só com a bomba elétrica do Golf GTI foram R$ 700".

Capô aberto, ele acelera ruidosamente a máquina transfigurada: originalmente movida a gasolina, agora anda a álcool por causa do turbo; a suspensão é rebaixada ao ponto de o carro só sair da garagem com auxílio de tábuas; o som é de boate.

Mais por precaução anti-blitz policial do que por juízo, ele ensina que é preciso saber a hora de acelerar (no caso dele, até 220km/h). "Nunca saio de dia, só bem tarde da noite e para o lugar certo (a cerca de 6 km de casa, distância na qual seu carro consome, por causa do motor "mexido", 30 litros de álcool)". Convencido de que o problema não é a velocidade, ele arremata: "Só fui multado uma vez, por falta de cinto, e estava a R$ 80km/h."

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