Carreira no crime só cresce. E prisão já se tornou 'faculdade'

Cenário: Bruno Paes Manso

O Estado de S.Paulo

26 de junho de 2012 | 03h03

Os 11 anos de quedas quase ininterruptas de homicídios em São Paulo - a exceção foi o ano de 2009 -, ajudaram a desviar a atenção de graves problemas na área de segurança pública e criaram uma falsa sensação de paz que não correspondia com a realidade. A alta generalizada nas taxas de criminalidade revela hoje a pujança de uma opção que até os anos 1980 era considerada desviante e excepcional, mas que não para de crescer: a carreira no crime.

Foram mais de 15 mil assaltos produzidos no mês de maio pelos integrantes desse universo, representando mais de 500 assaltos por dia, sem contar a grande quantidade de vendedores de droga - o que revela uma elevada produtividade da categoria no Estado.

Nas 151 unidades prisionais do Estado, encontram-se quase 200 mil pessoas, espalhadas em presídios localizados principalmente em cidades distantes da capital, nas regiões oeste e noroeste. Considerando os familiares dos presos, esse total representa cerca de 1 milhão de pessoas gravitando no entorno desse universo das prisões.

Para viajar para os presídios, é comum o transporte por ônibus bancados por integrantes do Primeiro Comando da Capital (PCC). Nas penitenciárias, quase sempre os detentos precisam pagar pelo próprio sustento enquanto cumprem as penas. Familiares chegam a gastar um salário mínimo por mês para comprar de comida a utensílios de higiene para o parente que cumpre pena, situação que acaba criando uma forte instabilidade familiar e fortalecendo os vínculos com as facções.

Antropólogos e sociólogos de universidades paulistas passaram a discutir as consequências nefastas desse cenário social que se arma e ameaça explodir se não começar a ser repensado. E a conta parece não fechar.

Ao mesmo tempo em que crescem os roubos e a venda de drogas, assim como a disposição de muitos jovens em ingressar nas carreiras criminais, as prisões lotadas se revelam cada vez mais como locais incapazes de ressocializar aqueles que nela ingressam. Pelo contrário. São chamadas pelos integrantes do mundo do crime de "faculdade". Nelas, os criminosos ampliam os contatos e são incentivados a se aprofundar e a se especializar.

Por enquanto, poucas alternativas foram levantadas para o problema. Os dados crescentes e a volta da instabilidade na segurança são bons motivos para se repensar os modelos e se aprofundar o debate sobre o tema.

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