CARNAVAL No Recife, Galo, chuva e (muita) emoção

Segundo organização, bloco teve participação de cerca de 2 milhões de foliões, mesmo com a ameaça de tempo ruim durante o dia

ANGELA LACERDA, RECIFE, O Estado de S.Paulo

19 de fevereiro de 2012 | 03h04

Às 6 horas da manhã de ontem, Fernando Zacarias, de 68 anos, porta-estandarte do Galo da Madrugada, já estava na sede da agremiação, na Praça Sérgio Loreto, no bairro de São José, centro do Recife. Sob chuva, ele pegou o porta-estandarte que carrega desde o nascimento do bloco, em 1978, envolvido em uma capa transparente e seguiu para a Avenida Sul, local da saída do desfile, previsto para as 10 horas. "Sequinho, o porta-estandarte pesa cerca de 17 quilos, com a água o peso dobra, não tem quem aguente carregar até o fim do desfile, quando anoitece", explicou Zacarias.

A chuva (que não deveria ser intermitente, de acordo com a meteorologia) não o preocupava. Orgulhoso e feliz com o papel que desempenha no "maior bloco do planeta", Zacarias tinha a certeza de que quando os fogos espoucassem e a escultura do galo postado na Ponte Duarte Coelho - 27 metros de altura e três toneladas - cantasse anunciando o início do seu reinado e do desfile em um roteiro de cerca de 5 quilômetros pelos bairros de Santo Antonio e São José, tudo daria certo. E o centro do Recife ficaria coalhado de gente, de música e de alegria. A previsão era de que a festa tivesse a participação de 2 milhões de pessoas.

No centenário de Luiz Gonzaga, grande homenageado do desfile, o baião estava destinado a ser tocado em ritmo de frevo. Ou o frevo em ritmo de baião. O Maestro Forró e sua orquestra da Bomba do Hemetério (bairro da zona norte da capital pernambucana), era um dos encarregados de fazer a mistura dos ritmos em cima de um dos 25 trios elétricos do Galo. A expectativa era de uma dobradinha dele com Dominguinhos.

Bandas e cantores, a exemplo de Fafá de Belém, Banda Calypso, Elba Ramalho, Maestro Forró, Lia de Itamaracá, Gustavo Travassos, Jorge Vercilo e o homenageado do carnaval recifense, Alceu Valença, também estavam com a presença confirmada na festa.

Emoção. Aos 66 anos e em pleno pique, Alceu já havia feito uma multidão vibrar em um show em sua homenagem que só terminou na madrugada de ontem, no palco do Marco Zero, no bairro do Recife Antigo, a pouco mais de um quilômetro da Ponte Duarte Coelho. O tributo contou com releitura de músicas suas, nos mais diversos estilos, nas vozes de Lirinha, Ney Matogrosso, Pitty, Karina Buhr, Lenine, Otto e Criolo.

A chuva, que não dava trégua, não impediu a multidão de participar do espetáculo com vibração. Os shows haviam começado por volta das 20h com o percussionista Naná Vasconcelos, de 67 anos, à frente de 500 batuqueiros de maracatu.

O ponto alto do toque africano da noite veio com Angélique Kidjo, de Benin, que cantou de Refazenda (Gilberto Gil), ao Bolero de Maurice Ravel (1875-1937).

Velho e novo. Depois da festa do Galo, no mesmo palco do Marco Zero, Claudionor Germano - que vai completar 80 anos em abril -, um dos mais famosos cantores do carnaval pernambucano, entraria em cena. Maior intérprete de Capiba e Nélson Ferreira, ele resumiu: "Quem sabe fazer, faz, não importa a idade; o pique e o vigor permanecem."

Para Claudionor, o carnaval é o melhor ambiente de junção do velho e do novo em harmonia. Pouco antes de se apresentar, ele garantia que quando começasse a cantar Madeira que o cupim não rói e A pisada é essa, de Capiba, todos, de avôs a netos, iriam acompanhar. "É um fenômeno, os meninos já crescem ouvindo os mais velhos cantarem", afirmou. "Nosso carnaval é lindo."

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