'Carnaval não precisa de verba pública', diz MP

Pelos meios legais, as escolas de samba do Rio já arrecadam muito mais do que os R$ 5 milhões a R$ 6 milhões estimados por especialistas e integrantes de agremiações ouvidos pelo Estado para realização de um desfile. Mesmo assim, apenas três agremiações não sofrem influência de bicheiros, milicianos ou traficantes.

RIO, O Estado de S.Paulo

19 de fevereiro de 2012 | 03h02

"O carnaval do Rio é autossustentável. Não precisaria de dinheiro público", afirmou a promotora de Justiça Gláucia Santana, responsável pelo inquérito. "O MP vem lutando há anos para trazer transparência ao carnaval, especialmente no uso de recursos públicos, que tem de ser passível de controle."

Na avaliação de Fábio Fabato, um dos autores do livro As três irmãs - como um trio de penetras 'arrombou a festa' (Novaterra Editora), sobre ascensão de Beija-Flor, Imperatriz Leopoldinense e Mocidade Independente de Padre Miguel, além de não precisar de recursos públicos, as escolas de samba já não precisam mais de apoio financeiro de bicheiros.

"O jogo do bicho teve seu papel no desenvolvimento do carnaval do Rio, mas foi até onde podia. As escolas têm de se profissionalizar, mostrar as contas, assinar carteira de seu funcionários", disse Fabato. "Não cabe mais ter grandes empresas querendo se associar às agremiações que volta e meia têm patronos presos."

A antropóloga da Universidade Federal do Rio Maria Laura Cavalcanti, que estuda carnaval desde 1984, ressaltou que os bicheiros hoje precisam muito mais das escolas do que o contrário. "As escolas são para eles um lugar de articulação de relações fundamentais, que apresentaram diversificação nos últimos anos, com atividade de contrabando e caça-níqueis, por exemplo", disse a autora do livro Carnaval carioca: dos bastidores ao desfile (Editora Ufrj).

Considerado um relativo bom exemplo de gestão e autonomia financeira, o Salgueiro voltou a ser alvo da cobiça dos bicheiros. Com uma quadra com capacidade para 8 mil pessoas, que chega a arrecadar mais de R$ 200 mil só com venda de ingresso para ensaios pré-carnavalescos, a escola está livre dos contraventores desde a morte de Waldemir Garcia, o Miro, e Waldomiro Paes Garcia, o Maninho, em 2004.

O Salgueiro passou a ser presidido por Regina Celi Fernandes em 2008 e, após 16 anos, conseguiu ser campeã em 2009. Shanna e Tamara, filhas gêmeas de Maninho, querem voltar a controlar a escola. Em janeiro, a Polícia Civil do Rio passou a investigar um suposto plano para matar Regina Celi.

União da Ilha e Unidos da Tijuca são outras escolas que, livres de bicheiros, traficantes e milicianos, são apontadas como bons exemplos de gestão. / A.J.

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