Daniel Teixeira/Estadão
Daniel Teixeira/Estadão

Carnaval mobiliza famílias nas escolas tradicionais de São Paulo

Como vivem as famílias criadas dentro de escolas de samba tradicionais de São Paulo, como a Vai-Vai, a Mocidade Alegre e a Nenê de Vila Matilde

Juliana Deodoro,

12 de fevereiro de 2013 | 17h03

Crianças que começaram a desfilar antes de ser alfabetizadas; casais que se conheceram no ensaio e estão juntos há mais de 30 anos; filhos, netos e bisnetos de fundadores que ainda vivem em função do samba. Nas escolas tradicionais de São Paulo, carnaval é herança, que não dá para negar e mobiliza várias gerações.

Na linhagem de seu Fernando Penteado, de 65 anos, o carnaval já está na quinta geração. Seu avô, Frederico Penteado, o Fredericão, foi um dos fundadores da Vai-Vai e sua neta, Anna Maria, de 14, é a mais nova do clã a entrar na avenida – aos 6 anos, ela desfilou pela primeira vez. A irmã de Fernando dirige a Ala das Crianças desde 1968. Uma filha foi rainha da bateria por 17 anos e a outra, é a atual porta-bandeira. “Ao todo, são 28 pessoas da família que trabalham na escola. Com a gente, não tem jeito: é Vai-Vai ou é Vai-Vai.”

Seu Fernando conta que nas reuniões familiares não se fala em outra coisa a não ser carnaval. Nos aniversários, o samba-enredo é cantado antes mesmo do Parabéns a você. Aos namorados e namoradas que são apresentados, a única pergunta obrigatória é para qual agremiação torcem. “Se não forem Vai-Vai, a gente até aceita, mas sempre vai ser alvo das brincadeiras”, avisa.

Paula Penteado, primeira porta-bandeira da Vai-Vai, filha de Fernando e mãe de Anna Maria, diz que, mais do que o almoço, o ensaio da escola é o programa familiar obrigatório de domingo. “Todo fim de semana, meu pai tem uma história que eu nunca ouvi. Faço questão de levar minha filha, para que ela passe para frente, pois é uma cultura que a gente não pode perder.” 

Casamentos. Assim como os pais, que se conheceram na quadra da escola há 36 anos, Paula também encontrou o marido na Vai-Vai. Apesar dos ensaios pesados e de o assunto em casa ser sempre o mesmo, ela diz que não há como ter atritos. “Chegamos juntos à quadra, mas cada um ensaia em um lugar diferente. Só nos vemos no final.” Fernando, o marido, faz parte da bateria da escola.

Solange Bichara, presidente da Mocidade Alegre, também se casou por causa do samba. Ela conheceu o marido, Mestre Sombra, em uma festa na Rosas de Ouro. Na época, ela já era Mocidade e ele, Camisa 

Verde e Branco. Por amor, Sombra trocou de escola e de emprego há 21 anos. O filho deles, Carlinhos, de 12, ficava com a zeladora da quadra quando era bebê e, no último sábado, foi à frente da bateria da Mocidade, ao lado do pai. Seu apelido na escola? Sombrinha. “A única coisa que eu tenho certeza na vida é de que o samba está no sangue”, diz Solange. 

Seguindo a tradição do avô, que em 1958 foi um dos fundadores do Bloco das Primeiras Mariposas Recuperadas do Bom Retiro – bloco que mais tarde se tornaria a Mocidade –, Sombrinha organiza com amigos o Bloco Misto Quente. “Eles estão fazendo camiseta para o bloco. Ele toca todos os instrumentos e não teve escolha, nasceu no samba”, afirma, orgulhosa, a mãe. 

Clã Matildense. “A história do samba é assim, passa de pai para filho”, resume Alberto da Silva Filho, o Betinho, herdeiro mais velho de Seu Nenê, o patriarca da escola que leva seu nome na Vila Matilde, zona leste. 

Assim como a Mocidade, a Nenê de Vila Matilde foi fundada por cinco irmãos. No início, a sede da escola funcionou na casa do avô de Betinho. A atual quadra, na Penha, fica na mesma rua onde seu Nenê morou por anos e seus filhos, netos e sobrinhos ainda moram. “A gente foi criado fazendo carnaval e vivendo o carnaval. Nossa relação com a escola é diferente, é familiar”, diz Betinho.

Naira Liê Alves da Silva, de 26 anos, começou no baile da escola, passou pelas alas jovem e da comunidade e hoje é diretora de Harmonia. No único ano em que resolveu não desfilar, logo que seu filho Henrique nasceu, foi chamada pelo avô. “Ele me disse para deixar o Henrique com a avó que não era do samba. Não tive como negar.”

Aos 6 anos, Henrique já se considera um ritmista. Toca todos os instrumentos, exceto o surdo – muito grande para ele. O preferido é o repilique, que domina em todos os ensaios da escola. 

Por 60 anos, a direção da escola ficou também com a família – primeiro com seu Nenê e depois com Betinho. Depois que a Nenê caiu para o Grupo de Acesso, em 2009, decidiu-se pela mudança na direção. Betinho permaneceu na diretoria, mas Rinaldo de Andrade, o Mantega, assumiu a presidência. “Com a profissionalização do carnaval, a escola optou por um avanço administrativo”, diz Betinho. “Cuidamos da águia (símbolo da escola) por 60 anos e vamos continuar cuidando.”

Sobrinha de seu Nenê, Arlete Alves de Souza, de 63 anos, mostra fotos de quando era passista. Há 18, ela comanda a Velha Guarda da escola e sente falta dos carnavais em que a família estava toda reunida. “A maior alegria era quando meu tio estava vivo. Ainda saio, mas sinto muita falta de todos. Eles eram nosso chão e eram também o chão da Nenê.”

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