Carnaval e ocupação urbana viram política pública

Nos últimos três meses, pôr cultura nas ruas virou plano de governo; grupos como #ExisteAmorEmSP estão em alta na gestão

JULIANA DEODORO, O Estado de S.Paulo

07 de abril de 2013 | 02h05

Na terça-feira, cerca de 35 jovens amparados por um microfone e um amplificador e conectados a um link direto na internet - possível graças a um "gato" em um prédio do outro lado da rua - se reuniam na Praça Roosevelt com o objetivo de planejar o próximo passo a ser tomado. A discussão girava em torno da organização de um evento cultural de grande porte no Vale do Anhangabaú, com diversos palcos, bandas e artistas - e com duração de 24 horas.

A preocupação com autorizações da Prefeitura e com possíveis problemas com a Guarda Civil Metropolitana (GCM) era quase inexistente, questões que seriam fundamentais há um ou dois anos. O motivo para isso era simples: nos últimos três meses, ocupar as ruas se tornou plano de governo, incentivado pela Prefeitura e defendido por Fernando Haddad (PT).

"Não acredito em repressão ou que a cultura seja um problema de polícia. Não acredito que a cidade deva ser um cemitério ou monastério. A rua é o melhor lugar para as práticas culturais", afirma o secretário municipal de Cultura, Juca Ferreira. A tal reunião, que durou quase duas horas e cuja transmissão online não resistiu a um caminhão que puxou o fio da internet, foi mais um encontro do grupo #ExisteAmorEmSP.

Responsável por manifestações políticas no ano passado em São Paulo e citado duas vezes por Haddad em seu discurso de posse, o movimento é um exemplo de como a articulação com esses grupos se tornou peça fundamental para a administração.

Exemplos não faltam. Em fevereiro, a Vila Madalena presenciou o "renascimento" do carnaval, apoiado pela Secretaria de Cultura. Artistas de rua também voltaram com força para as principais vias da cidade. "Isso é latente, é atual e não é só do movimento da cultura. Acho inteligente o governo municipal perceber que esse é um ponto importante para a cidade", diz Gustavo Melo, coordenador do bloco carnavalesco Nóis Trupica Mas Não Cai e integrante do Manifesto Carnavalista.

Contraponto. Apesar da efervescência da ocupação, ela não é vista com bons olhos por todos. "Na gestão Kassab, o controle era mantido ao extremo, mas não dá para liberar geral. Há várias maneiras de ocupar o espaço público e certamente a melhor é de forma organizada", afirma Lucila Lacreta, diretora do Movimento Defenda São Paulo. Lucila lembra que não são apenas artistas e jovens os ocupantes das ruas. "A questão dos ambulantes foi muito controlada e temos de reconhecer que em algumas situações foi benéfica. O comércio ambulante provoca uma situação de caos e acaba gerando situações de insegurança", diz. Há duas semanas, o Estado mostrou que os camelôs estavam de volta na Rua 25 de Março e na Praça da República.

Morador da Vila Madalena há 15 anos, o designer Tom Green, de 47 anos, estava no olho do furacão do carnaval, e não ficou nada satisfeito. Nos últimos meses ele vem acompanhando a criação de uma comissão - formada por blocos e moradores - que vai planejar a festa do próximo ano. Mesmo com a abertura de diálogo, o inglês não acredita que muito será resolvido. "A nova gestão é pró-cultura, especialmente ao carnaval. Infelizmente, os moradores são poucos se comparados aos foliões", lamenta.

Política. Segundo o secretário de Cultura, apesar das reclamações, o diálogo foi estabelecido e será por meio dele que essas questões serão resolvidas. "Esse é o papel do poder público: intermediar diálogos para permitir que a cidade encontre os caminhos."

A bandeira do diálogo é uma das principais levantadas por Ferreira, tanto que a pasta criou o #ExisteDiálogoEmSP, série de encontros para ouvir o que a sociedade deseja da administração. O nome faz referência direta ao #ExisteAmorEmSP, que, de acordo com o secretário, foi uma "demonstração de cidadania", que chamou a sua atenção. "Depois de muitos anos de abandono, as pessoas estão voltando a gostar da cidade e nós queremos participar desse processo", afirma.

Pablo Capilé, do Fora Do Eixo, um dos coletivos que encabeçam o movimento cor de rosa do amor em São Paulo, garante que, apesar de serem bem vistos pela administração, o grupo não tem nenhuma influência política nas decisões. "Não influenciamos por dentro da gestão, debatemos a cidade. Quem é sensível às demandas da sociedade civil compreende isso", diz. Questionado sobre qual seria a relação da secretaria com o movimento, Ferreira afirma que quer apenas dialogar. "Existe amor bandido, mas o melhor amor é dialogal", brinca.

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