Carnaval causa saia-justa entre Beltrame e Sarney

Secretário do Rio defende criminalização do jogo do bicho e mandou prender patrono da Beija-Flor, escola que ganhou R$ 1,5 milhão do Maranhão

VANNILDO MENDES / BRASÍLIA, LUCIANA NUNES LEAL / RIO, O Estado de S.Paulo

10 de fevereiro de 2012 | 03h06

O samba atravessou a política e colocou ontem frente a frente o secretário de Segurança do Rio, José Mariano Beltrame, e o senador José Sarney (PMDB-AP), pai da governadora do Maranhão, Roseana Sarney. A Beija-Flor de Nilópolis, que homenageia neste ano o Maranhão, quer levar mais um campeonato, mas entrou na avenida um delegado gaúcho, que prendeu o patrono da escola, o bicheiro Anísio Abraão. O clima foi de saia-justa na reunião com integrantes do Colégio Nacional de Segurança Pública (Consesp). Há um mês, na Operação Dedo de Deus, Beltrame mandou prender o bicheiro. O samba enredo da escola neste ano é "São Luís - Poema Encantado do Maranhão".

Na operação, uma tropa de elite do Rio desceu de rapel de helicóptero na cobertura de Anísio. Policiais estiveram também no barracão da escola, onde apreenderam dinheiro e computadores. Bairrista notório, Sarney demonstrou insatisfação com os danos à imagem da escola causados pelo que chamou de "pirotecnia" da ação policial.

Linha dura no combate ao crime, Beltrame levou ao encontro antiga proposta de criminalizar o jogo do bicho, tipificada hoje apenas como contravenção. A seu ver, a atividade está associada a vários crimes, sobretudo narcotráfico, contrabando, lavagem de dinheiro e tráfico de seres humanos. "Que decidam: ou libera, ou criminaliza", afirmou. "Como está é que não pode ficar, pois só serve para desmoralizar as instituições policiais."

Beltrame teme que Anísio logo esteja na rua, beneficiado por habeas corpus, mas não tratou diretamente do tema com Sarney. Coube a um aliado, o senador Pedro Taques (PDT-MT), puxar o tema. Taques disse que a criminalização do jogo é bandeira do Rio que ele apoia. Escaldado, Sarney manteve a conhecida pose olímpica, que costuma definir como "liturgia do cargo". Mostrou-se simpático, não entrou no mérito, limitou-se a agradecer a entrega do documento e posou para foto. "Se estava contrariado, disfarçou bem", comentou uma testemunha.

Com o caixa reforçado por R$ 1,5 milhão do governo maranhense, a Beija-Flor vai falar de princesas, índios, serpente encantada, holandeses, bumba meu boi e Joãosinho Trinta. O governo reconheceu o pagamento oficial à agremiação, mas outros gastos ainda estão nebulosos, como as viagens de integrantes da escola ao Maranhão e de maranhenses ao Rio. "Algum dia você viu a Beija-Flor falar de política? Vocês querem é chegar no Sarney", diz o diretor de Carnaval e Harmonia da escola, Luiz Fernando do Carmo, o Laíla.

Convidada especial da escola, Roseana ainda não confirmou presença. Uma ausência é garantida: a do prefeito da capital, João Castelo (PSDB), adversário da família Sarney. "Ele é contra a governadora, a Beija-Flor tem ódio dele", diz Laíla. "Não quero conhecer, não quero falar. Ele é oposição." O prefeito rebate: "Não conheço esse senhor. Desconheço a razão de tamanha hostilidade."

Sem licitação. Em 27 de setembro, o secretário Jurandir Ferro publicou no Diário Oficial do Estado termo que atestava não ser necessária licitação para repassar R$ 1,5 milhão, para "promoção e divulgação do produto turístico maranhense". Líder da oposição, o deputado Marcelo Tavares (PSB) disse ser contra o pagamento. "É um desperdício."

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