Carla Cepollina diz que Ubiratan temia ser morto

No segundo dia do júri, acusada afirmou que coronel estava 'esquisito' e no dia do crime o deixou no apartamento dormindo

ADRIANA FERRAZ, O Estado de S.Paulo

07 de novembro de 2012 | 02h07

A voz estava nervosa, os pés balançavam insistentemente e a mãos tremiam, mas Carla Cepollina, de 47 anos, tinha as explicações todas na ponta da língua. Acusada pela morte do coronel Ubiratan Guimarães, de 63, a advogada e namorada da vítima na época começou seu interrogatório no fim da tarde de ontem, declarando que a acusação pela qual responde é "absurda". Segundo Carla, o coronel foi morto depois que ela deixou o apartamento dele, em 9 de setembro de 2006. Na versão da acusada, ela saiu sem aviso porque a vítima estava deitada na cama, dormindo e de "fogo".

Na tese apresentada por Carla, o coronel estava com medo nos dias anteriores ao crime. "Ele estava esquisito, falando o tempo todo de morte. Chegou a dizer que queria ser velado no (Palácio) 9 de Julho", disse. Segundo a ré, os dois passaram o dia do crime juntos.

Entre 19h e 20h, suposto horário do crime, Carla afirmou que estava no apartamento. "Chegando lá, ele foi dormir, tinha bebido um montão. Eu fui tomar banho", disse. Quando saiu do chuveiro, Carla disse que ouviu o celular pessoal da vítima tocando e atendeu, já que ele dormia. "Vi que era a Renata (delegada da Polícia Federal apontada como amante da vítima). Ela pediu para falar com o Ubiratan e eu passei o telefone." De acordo com a ré, a ligação não deu início a nenhuma discussão. "Depois voltei a fazer a minha toalete e o Ubiratan continuou a dormir."

Por volta das 20h30, quando saía do apartamento, Carla reconheceu ter atendido novo telefonema da delegada, desta vez no número fixo. "Eu nunca atendo aquele número, mas ele estava tocando insistentemente. Era a Renata novamente. Em um tom inadequado, pediu para falar com Ubiratan. Cheguei a chamar, mas ele não acordou e então falei para ela ligar depois."

Com todas as falas ensaiadas, Carla disse que agiu normalmente após deixar a casa do namorado. Do carro, conversou com sua mãe e advogada, Liliana Prinzivallli, e ainda tentou falar com a vítima e com um amigo dele, mas ambos não atenderam. A ré ressaltou por várias vezes que o namorado bebia demais e, por isso, era comum que ela saísse do apartamento sem avisá-lo.

Ao juiz Bruno Ronchetti de Castro, a ré disse que só tomou conhecimento que Ubiratan tinha amantes após a morte dele. Até o crime, os dois namoravam em harmonia, sem comprometimento. "Ele era inteligente, engraçado e extremamente sedutor. Nosso relacionamento era gostoso. Nunca brigamos." Carla ainda negou que quisesse casar e ter filhos, o que teria levado ao fim do relacionamento, segundo a acusação. "Sempre fui independente. Ele tinha a vida dele, eu a minha. Era assim que pretendíamos continuar."

Polícia. Com tom mais agressivo, Carla disse que sofreu terror psicológico durante depoimentos que prestou aos policiais. Em uma ocasião, sem a presença de advogados, disse que passou 8h15 com quatro delegados e dois investigadores. "Eles blefaram por diversas vezes."

Segundo Carla, a polícia a testava o tempo todo. "Eles eram maus. Eram do Capão Redondo", referindo-se ao bairro da zona sul com altos índices de criminalidade.

A citação sobre a origem dos policiais não foi o único momento em que a ré demonstrou pertencer a uma classe social mais privilegiada. Ao longo do interrogatório, Carla afirmou que Ubiratan havia se transformado a partir do namoro, dando a entender que sua influência o deixara mais requintado. A previsão era de que a ré continuaria a responder perguntas até as 23h e o resultado pudesse sair na madrugada de hoje.

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