Carandiru: promotor tira 21 mortes da acusação

Os 25 PMs passaram a responder por 52 assassinatos dos 73ocorridos no 2.º andar do Pavilhão 9 da Casa de Detenção

Luciano Bottini Filho e Mateus Coutinho,

03 de agosto de 2013 | 03h11

O dia mais decisivo para 25 policiais militares acusados no caso Carandiru, em 1992, foi nesta sexta-feira, 2, com o plenário cheio e uma novidade: o Ministério Público anunciou que eles eram culpados por 52 e não mais pelas 73 mortes no 2.º andar do Pavilhão 9 da Casa de Detenção.

Logo no início dos debates, a última fase do júri antes da sentença, o promotor Fernando Pereira da Silva avisou aos jurados que pediria a absolvição dos PMs por 21 mortes. "Não queremos cometer injustiças", disse. Ele levou em conta o fato de que três detentos tiveram suas mortes atribuídas a brigas entre os próprios presidiários, e quatro vítimas morreram em outro pavimento. Além disso, outros 14 detentos foram mortos no corredor direito do andar, e os réus entraram pelo lado esquerdo, segundo as provas no processo.

A sustentação da Promotoria foi recheada de outros números para demonstrar que houve execução no Carandiru. De acordo com os dados do laudo do Instituto Médico-Legal, dos 52 mortos, 37 tinham perfurações com trajetórias diferentes, e mais da metade das vítimas recebeu 2, 3 ou 4 tiros na região da cabeça e pescoço. Além disso, no andar onde os 25 réus entraram não houve nenhum sobrevivente dentre os detentos que foram alvejados. Entre os réus, segundo o promotor Eduardo Canto, só um não estava envolvido em resistência seguida de morte até 2010. "Eu não sei como (os réus) conseguem dormir. Isso é repugnante", afirmou.

Mas números também foram usados pela defesa para mostrar que a Justiça está equivocada. "Nove mortos só tinham estiletadas", disse a advogada Ieda Ribeiro de Souza, que sugeriu que esses assassinatos fossem investigados entre os detentos. Ela também criticou a demora de 21 anos na investigação e as dificuldades do próprio MP em definir as mortes causadas pelos réus. "Em que pese todo o respeito ao MP, antes deles eu lidei com promotores da Justiça Militar, juízes que hoje são desembargadores, e só agora eles vêm dizer que são 52 mortes? Vamos parar de brincadeira de mau gosto."

 

Debates. A defesa tentou persuadir os jurados de que eles estavam cumprindo seu dever e são bons chefes de família, agradecendo a presença deles na plateia. Ela comparou as mulheres dos PMs no auditório à Penélope da mitologia grega, que esperava Ulisses voltar.

Segundo Ieda, trata-se de um julgamento político, contra a instituição da PM. "Quem deveria estar aqui é o dr. Fleury (governador de São Paulo em 1992)." Mas a promotoria tentou deixar claro que a intenção era punir os policiais e não a corporação. "Não se trata de um julgamento da polícia de São Paulo, mas de uma conduta criminosa", disse Silva.

Ieda fez referência às duas testemunhas protegidas, ligadas ao sistema penitenciário. Elas foram usadas para convencer os jurados da violência dentro da prisão e de que não havia como estabelecer onde cada detento vivia.

Até as 3h30 da madrugada deste sábado ainda não havia saído o veredicto. Após a tréplica da defesa, que durou cerca de duas horas, os jurados se reuniriam em uma sala secreta ao lado do plenário principal do Fórum Criminal da Barra Funda, na zona oeste de São Paulo, para decidir o destino dos acusados. / Colaborou Victor Vieira

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