Carandiru: perito fala em 'mar de cadáveres'

No primeiro dia de júri, testemunha diz que balas usadas no crime foram retiradas do local

30 Julho 2013 | 00h21

Após quase cinco horas de vídeos das falas de três testemunhas de acusação, terminou na noite desta segunda-feira, 29, o primeiro dia do julgamento dos 26 acusados por 73 das 111 mortes no Carandiru, em outubro de 1992. Ao todo, foram cerca de 14 horas de audiência, com intervalos. Sem esboçar muitas reações, jurados e réus viram os vídeos até 0h desta terça-feira no plenário principal do Fórum Criminal da Barra Funda.

Na etapa anterior, em abril, foram condenados a 156 anos de prisão 23 PMs do 1º andar do Pavilhão 9. O primeiro dia de audiência para os réus do 2º andar do Carandiru foi marcado pela escolha dos jurados - sete homens - que passaram por exames médicos por uma junta do Tribunal de Justiça. Essa foi uma medida de precaução, diante dos transtornos na primeira etapa do processo , quando foi julgado o bloco de PMs do primeiro andar da Casa de Detenção. O primeiro júri, em abril,chegou a ser cancelado, por causa de uma jurada que passou mal. Na semana seguinte, o julgamento com novos jurados foi retomado também com interrupções porque um deles não se sentia bem.

Ao todo, o julgamento dos PMs envolvidos no chamado Massacre do Carandiru foi dividido em quatro etapas, de acordo com o andar onde ocorreram as mortes. O Ministério Público aproveitou três depoimentos das testemunhas de acusação do júri anterior.

Nas gravações, feitas em abril, os ex-detentos Marco Antônio Moura e Antônio Carlos Dias relataram a briga entre dois internos que deu origem ao tumulto e a violência na ação dos policiais ao invadir o presídio. Marco Antônio Dias, que sobreviveu à tragédia ao se fingir de morto, contou que era comum ouvir na Casa de Detenção que "Deus cria e a Rota mata".

Também foi forte o último depoimento em vídeo ex-coordenador de segurança do Carandiru, Moacir dos Santos. De acordo com a testemunha, presídio tinha uma "pilha de corpos metralhados" e uma cascata "de água e sangue que escorria pela escada" depois do tiroteio.

Santos conta que as autoridades ficaram preocupadas em despistar os repórteres, os familiares das vítimas, além dos impactos negativos das eleições para governador que seriam naquela semana. Por isso, de acordo com o antigo coordenador de segurança do presídio, a decisão foi encaminhar os cadáveres para três diferentes unidades do Instituto Médico Legal.

Moacir dos Santos ainda reiterou a tese sustentada pela promotoria, de que não viu policiais serem feridos durante o episódio. Osvaldo Negrino Neto, perito que vistoriou o Carandiru depois da massacre e depôs nesta segunda-feira, também confirmou que não havia PMs feridos no segundo andar do presídio.

Mais conteúdo sobre:
carandiru, julgamento

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.