Carandiru: ex-comandante da Rota deve é interrogado nesta quinta-feira

Salvador Madia é questionado sobre a morte de 73 detentos no complexo em outubro de 1992

Luciano Bottini Filho, O Estado de S. Paulo

01 de agosto de 2013 | 09h40

Atualizado às 15h03

SÃO PAULO - O ex-comandante da Rota (2011-2012) Salvador Madia começou a ser interrogado às 13h40 desta quinta-feira, 1, no júri dos PMs acusados de matar 73 detentos no Carandiru em outubro de 1992. Ele  é o último dos cinco réus que aceitaram responder às perguntas diante dos jurados, entre os 25 policiais denunciados por causa da invasão no 2º andar do Pavilhão 9 da Casa de Detenção. O julgamento é o segundo do caso e ocorre no Fórum Criminal da Barra Funda, na zona oeste de São Paulo.

Nessa quarta-feira, foram ouvidos quatro réus - todos oficiais. Dezoito praças (PMs que ingressaram como soldados) na época dos fatos exerceram o direito de ficar calados.

O interrogatório do último réu que falou diante dos jurados nessa quarta terminou às 2h45. A audiência começou às 11h45 e durou 15 horas, com intervalos . Uma das primeiras perguntas feitas ao tenente-coronel Edson Pereira Campos pelo juiz Rodrigo Tellini foi se ele entendia qual era a acusação. "Não entendo a acusação. Efetuei um disparado e estou sendo processado por 73 homicídios", respondeu o réu, que era soldado na época dos fatos.

Ele disse que não chegou a ver nenhum preso nu. A mesma pergunta foi feita aos demais réus ouvidos ao longo do terceiro dia de júri: o coronel Valter Alves Mendonça, capitão da tropa que está sendo julgada nesta fase do processo, e o tenente coronel Carlos Alberto dos Santos. Corpos foram encontrado nus, segundo o Ministério Público, sinal de que foram mortos rendidos.

Dúvidas. A promotoria usou os interrogatórios dos réus que concordaram em responder às perguntas para traçar contradições entre os depoimentos. Uma das diferenças nas versões é o fato de eles não recordarem os colegas que se feriram e alegarem terem sido atacados pelos detentos, o que faria que uns tivessem visto os outros ao recuarem. Além disso, os promotores mostraram uma planta do 2º andar do Pavilhão 9 e procuraram saber detalhes sobre o ponto onde teria havido confrontos. Houve diferenças nos relatos e falhas de memória.

"Eu poderia dizer isso há 20 anos atrás, quando eu tinha uma memória mais precisa. Estou aqui hoje prestando declarações após 21 anos. Estou tentando exprimir o que a minha memória permite", disse Campos.

A defesa mostrou uma imagem onde PMs aparecem em frente de presos nus carregando corpos. Os réus disseram que os uniformes não eram compatíveis com a Rota. "Não é do meu pelotão, não", disse Santos. O tenente-coronel enfatizou também que é processado apenas por que efetuou disparos no dia da invasão. "Têm outros batalhões de choque que fizeram os disparados e não estão aqui".

O principal testemunho do dia foi o coronel Valter Alves Mendonça, que descreveu uma operação de 15 minutos em que não cita nenhuma das 73 mortes pelas quais mais 24 policiais são julgados nesta semana. Mendonça centrou sua versão de que é inocente somente falando por si e sua participação na invasão. Responsável pelos demais integrantes da equipe encarregada de dominar um dos pavimentos do Pavilhão 9, a expectativa era que ele desse informações sobre a conduta da tropa. No entanto, ele se limitou a dizer que participou de três confrontos, ficou ferido e se retirou do local, levando para atendimento médico outros policiais e detentos atingidos. Ele não falou de mortos nem corpos. Havia apenas presos "gemendo de dor".

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