Jose Patricio/AE
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Cara nova para rua de cortiços da Bela Vista

Parceria entre Prefeitura e Estado prevê revitalização da Conde de São Joaquim

Márcio Pinho, O Estado de S.Paulo

29 Outubro 2010 | 00h00

A Companhia de Desenvolvimento Habitacional e Urbano (CDHU) e a Prefeitura de São Paulo assinam hoje parceria para revitalizar a Rua Conde de São Joaquim, na Bela Vista. Ao lado da Avenida 23 de Maio, a via da região central concentra diversos cortiços, que ocuparam casas históricas e galpões. Um incêndio chegou a atingir barracos levantados na área em 2007. O local ainda é ponto de tráfico e de assaltos, conforme os moradores.

O trabalho da CDHU e da Prefeitura visa a atrair a iniciativa privada - trazer lojas e restaurantes, por exemplo - e assim valorizar a região. Isso sem retirar a característica residencial da via.

A estratégia será desenvolvida em duas frentes. A companhia entregará até 2012 três edifícios com 194 apartamentos - com investimento de R$ 20 milhões.

Eles ocuparão o lugar de oito imóveis ocupados por sem-teto que foram desapropriados. "É uma mudança de paradigma. Não adianta criar conjuntos para essa população e deixar os imóveis vazios, porque eles são invadidos novamente", afirma o presidente da CDHU e secretário da Habitação do Estado de São Paulo, Lair Krähenbühl. Já a Prefeitura ficará responsável por fazer novas calçadas, plantar árvores, melhorar a iluminação e criar vagas de estacionamento na região.

Cortiços. O governo municipal deverá ainda fiscalizar os cortiços para que estejam totalmente adaptados à legislação que rege esse tipo de habitação. O objetivo é que essas moradias não sejam sinônimo de degradação, com famílias sublocando porões, por exemplo.

A irregularidade tem precedentes na via. Em 2004, foi decretada a prisão temporária de cinco líderes do Movimento dos Trabalhadores Sem-Teto da Região Central. Na investigação, eles eram acusados por famílias de as obrigarem a participar de invasões e suspeitos de repassar apartamentos por R$ 1 mil.

A superintendente de Favelas da CDHU, Marilisa Fernandes, afirma que a revitalização da Conde de São Joaquim será pioneira porque terá como "mote" a habitação de interesse social. "Não se trata apenas de revitalizar o comércio", observa. De acordo com Marilisa, os imóveis para moradores de baixa renda já são uma realidade na Bela Vista, em meio aos diversos restaurantes.

O primeiro dos três prédios a serem entregues ficará pronto em maio. Será destinado a famílias que tinham invadido um imóvel em um bairro próximo, a Vila Itororó. Os outros dois serão voltados a cadastrados no Programa de Cortiços. Estão tendo de deixar os imóveis desapropriados 118 famílias que, segundo a CDHU, recebem assistência.

Apoio. Comerciantes e moradores apoiam a revitalização. O aposentado José Carlos Niza, de 63 anos, diz que a rua se degradou muito nos últimos anos. Desde 1975 residindo na via, ele conta que os galpões locais eram usados como oficinas mecânicas e estacionamentos, mas que acabaram virando abrigos no início desta década. O comércio ficou prejudicado. Ele pede agora que o aumento de áreas verdes, raras na região, seja prioridade.

Rui Mello, de 67 anos, dono de uma loja de louças e porcelanas há 25, também opina que a rua ficou esquecida e deixou de ser um destino comum de consumidores, apesar da localização - está perto do metrô e do centro. "O trabalho será importante para revitalizar o comércio e valorizar os imóveis."

Moradora do Flat Bella Vista, Celene de Carvalho conta que a revitalização é um antigo anseio dos moradores e já foi requisitada algumas vezes ao poder público, por causa da degradação e da insegurança. "A expectativa é de que se possa fazer um quarteirão-modelo para o Bexiga."

O NOME DA RUA:   CONDE DE SÃO JOAQUIM (BAIRRO DA BELA VISTA, CENTRO)

Joaquim Lopes Lebre nasceu em Aguim, no Distrito de Aveiro, em Portugal, no dia 18 de agosto de 1834. A convite do irmão, João Lopes Lebre, veio para São Paulo aos 14 anos. Fundou em 1858 a Casa Lebre & Irmão, na Rua Direita.

Joaquim Lopes Lebre se dedicou às obras de benemerência, criando escolas e financiando hospitais. Foi um dos fundadores da Beneficência Portuguesa de São Paulo. Recebeu os títulos de barão (1878), visconde (1881) e conde (1890) do reino de Portugal. Morreu em abril de 1909.

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