'Capitão Nascimento' fatura R$ 6 mi com dicas de autoajuda

De ex-capitão do Bope a professor universitário

O Estado de S.Paulo

24 Março 2013 | 02h07

Ex-integrante do Bope está entre os palestrantes mais

procurados do País, sobretudo para animação de vendedores

Para arriscar a vida diariamente e enfrentar traficantes com fuzis em tiroteios, um capitão do Batalhão de Operações Policiais Especiais (Bope) do Rio ganha pouco mais de R$ 5 mil líquidos mensais. O valor é semelhante ao que se paga por meia hora de palestra com o ex-capitão do Bope Paulo Storani, de 50 anos, um dos três oficiais que inspiraram o multidimensional capitão Nascimento, do filme Tropa de Elite, de José Padilha.

Duas horas de seu show, uma mistura de stand up comedy com dicas para formar equipes e motivar vendedores, custam entre R$ 20 mil e 30 mil. Storani conta piadas e faz as pessoas sentarem e levantarem de seus assentos para falar sobre planejamento e metas. No ano passado, foram 305 eventos. Para março, estão previstas 36 palestras, o que transforma Storani no número 1 entre cerca de 100 figurões do Palestrarte, empresa que também tem em seu casting Bernardinho e Caco Barcelos - o segundo lugar entre os mais chamados.

A agenda lotada garante a Storani faturamento de mais de R$ 6 milhões anuais, salário maior que o da maioria dos jogadores de futebol no Brasil. O teto salarial do Corinthians, por exemplo, é de R$ 500 mil mensais. "O Storani funciona principalmente para animar as equipes de venda. O show tem conteúdo, humor e energia. As pessoas saem gritando 'faca na caveira'", diz Ana Tikhomiroff, da Palestrarte, que o agencia.

As palestras do Capitão Nascimento da vida real começaram a bombar no ano passado, três anos depois de ele ingressar no ramo. O motivo foi a publicidade boca a boca. "As empresas tiveram bons resultados nas vendas e contaram para os outras", diz Storani. "Neste ano, eu estou sendo chamado para entregar prêmios pelos bons resultados das palestras que fiz", afirma, antes de entrar em mais um evento no Novotel, numa terça-feira à noite, no centro da cidade.

No teatro abarrotado, com mais de 400 lugares, foi preciso arrastar cadeiras para caberem todos os vendedores do Consórcio Mercabenco, das concessionárias de carros de luxo da Mercedes em São Paulo. Muitos vestiam camisas pretas, com o símbolo da faca espetada no crânio da caveira, imagem que representa o Bope.

Frases de para-choque gravitam em torno do tema principal da palestra: "Como construir uma tropa de elite". Na camiseta preta de Storani estão estampadas sentenças como "missão dada é missão cumprida" e "vá e vença". No muque do braço direito, ele tem o símbolo do Bope tatuado. Quando sobe no palco, diante de vendedores curiosos, Capitão Nascimento tenta de cara suavizar a imagem, ao estilo 'hay que endurecer, pero sin perder la ternura'. E se revela aos poucos um cara engraçado.

Agressividade com causa. Sobram piadas até sobre as torturas que os policiais do Bope foram acusados de fazer no cinema, capazes de chocar os mais sensíveis ao tema dos direitos humanos. "Digo que 99% do filme Tropa de Elite é baseado em fatos reais. Só não são reais o saco plástico e o cabo de vassoura", diz, com um sorriso cínico, em referência às torturas aplicadas aos bandidos. A plateia solta um "ahhh!". E ele responde: "Não posso falar sobre isso. Mesmo se me colocarem um saco plástico, vou dizer que não sei". A plateia dá risadas.

A pregação de uma agressividade com causa, aliás, está por trás do sucesso do Capitão Nascimento no mundo das vendas. Storani ensina aqueles que vivem o dia a dia competitivo do mercado a se tornarem os predadores, em vez de presas indefesas. Na essência, a palestra busca explicar a diferença entre ser um vencedor e um fracassado, a partir de uma visão darwinista do mundo, aproveitando a imagem pública do Bope de estar no topo da cadeia alimentar da selva urbana.

Conforme ensina Storani, tanto os policiais quanto os vendedores podem compartilhar o mesmo credo. Cada um em sua selva. A partir de sua experiência em comandar equipes, ele explica que os competidores só conseguirão superar suas metas quando tiverem um foco, trabalharem bem em equipe e se planejarem para alcançá-los, como fizeram "os 300 de Esparta", os "escoceses de Coração Valente" e os "caveiras da Tropa de Elite". Vá e vença.

Começo. Storani conta que abraçou o Bope quando seu antigo comandante, coronel Humberto Mauro Ramos de Oliveira, em 1995, fez um discurso que contagiou a tropa no pior momento da criminalidade fluminense. Segundo o ex-Capitão Nascimento, em sua fala inesquecível sobre a segurança pública, o coronel disse: "A situação está ruim, mas vai piorar. Vai aumentar a quantidade de drogas e de armas. Quando todo mundo fugir, somos nós que vamos lutar. Quem não quiser ficar pede para sair. Para quem ficar, vai ter tiro, porrada e bomba. Mas vamos escrever a história da segurança pública do Rio de Janeiro."

Todos os caveiras gritaram entusiasticamente depois do discurso, incluindo Storani, que até se emocionou. Os ouvintes ficam atentos. Em seguida, o ex-capitão sugere a eles que façam um paralelo com as vendas. Mais do que um trabalhador, ele ensina, o vendedor deve ser um missionário, compromissado até os fios do cabelo com sua tarefa.

Se o ouvinte fechar os olhos, o sotaque carioca do ex-oficial do Bope e suas frases de autoajuda, pedindo respostas em delírio à plateia, lembram o estilo dos pastores da Universal do Reino de Deus, igreja também criada no Rio. Storani ainda foi capaz de escrever um roteiro frenético e bem humorado, chave do sucesso no circuito de autoajuda.

Depois de duas horas de show, o fim da palestra é apoteótico, com o Capitão Nascimento mandando e desmandando, como se falasse para um rebanho pronto a obedecer. Primeiramente, ele manda as 400 pessoas da plateia se levantarem e sentarem quatro vezes para mostrar como atitude e planejamento podem fazer a diferença. O exercício se repete, com o capitão cronometrando os segundos do sobe e desce, com palavras de incentivo para que fique mais rápido em cada nova rodada.

Para quem não se contagiou com o ambiente, como era o caso da reportagem, parecia uma brincadeira infantil. No fim, ele foi aplaudido de pé e se retirou ao som do rock tema do filme, tocado pela banda Tijuana. O vendedor André Abu Laila acredita que as ideias do Bope podem ser úteis na carreira de vendedor. "Ensina a ter determinação e foco", diz. André acredita que depois do curso vai se tornar um vendedor-caveira. E superar suas metas.

CV: Ex-capitão do Batalhão de Operações Policiais Especiais (Bope), Storani é mestre em Antropologia pela Universidade Federal Fluminense, professor e pesquisador do Instituto Universitário de Políticas Públicas e Ciências Políticas da Universidade Cândido Mendes.

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