Capital paulista tem 2.834 internos em 143 unidades

Secretaria de Assistência Social diz que plano federal deve priorizar a retomada dos laços familiares

O Estado de S.Paulo

27 de setembro de 2012 | 03h07

Só na capital paulista, há 2.834 crianças e adolescentes vivendo em abrigos. No total, são 143 unidades que funcionam por meio de convênios. Cada entidade recebe da Prefeitura um repasse mensal de R$ 8,1 mil. De acordo com a Secretaria Municipal da Assistência Social, o plano federal é bem-vindo e deve priorizar a capacitação dos profissionais.

A cidade de São Paulo mantém ainda em programas de liberdade assistida outros 5.445 menores. Para a pasta, o objetivo principal deve ser a retomada dos laços familiares, a fim de promover a volta dos menores para casa, além de ampliar o combate à pedofilia.

O promotor de Justiça Lélio Ferraz Siqueira Neto ressalta ainda a necessidade de se implementar uma política integrada entre os governos não só na área da assistência, mas da saúde, renda e, principalmente, educação. "Não há como evitar a participação de menores no tráfico, por exemplo, com ações isoladas. Bolsas sociais não resolvem. A atração para o crime é muito grande. Vendendo drogas, ganha-se até R$ 100 por dia", diz o promotor.

Em São Paulo, há mais uma particularidade: não são apenas as crianças abrigadas que estão em situação de risco. Segundo censo realizado pela Prefeitura em 2011, 42 crianças acompanhadas dos pais vivem nas ruas, além de 179 adolescentes.

Além desses, há aqueles que vivem sozinhos. D., de 14 anos, experimentou maconha ainda na infância, em Curitiba. Hoje, sua rotina é perambular pelas ruas do centro, para onde se mudou depois de uma tragédia familiar, há dois anos. "Minha mãe morreu por causa do tráfico de drogas. Até hoje, o cara que matou a minha mãe ainda não foi preso. Tanto ela quanto ele eram traficantes", conta.

D. diz que o pai tem cirrose e vive acamado. A única ajuda possível viria da avó, mas o fato de terem descoberto que ele fumava maconha fez com a família se afastasse. "A minha avó ficou sabendo que eu usava e, depois disso, começou a me desprezar. Entre todos os netos, eu era sempre o último. Foi aí que decidi vir para São Paulo, de carona."

D. conta que nunca usou crack, apesar dos insistentes convites feitos pelos colegas de rua. Ele fala que parou de fumar maconha há quatro meses.

Sobre o futuro, D. descarta por completo uma reaproximação com os irmãos e a avó ou um retorno a Curitiba. Ele diz que procurou o conselho tutelar para ter os seus documentos e que sonha em trabalhar e alugar um quarto onde possa viver por conta própria. Até lá, se vira como pode. "Durmo em abrigo ou na rua. Procuro sempre um lugar mais quente e confortável", diz. Para conseguir comida, prefere pedir dinheiro às pessoas, "porque roubar é feio".

Agressão. Muitas vezes, a violência dentro da própria família é o que leva as crianças para as ruas. Foi o caso de F., de 14 anos, que desde os 10 anos de idade vive na região da cracolândia. No rosto, ele traz as cicatrizes das surras que levava do pai na casa onde morava, no bairro do Limão, zona norte. "Ele me batia muito", afirma.

F. tem dificuldade para falar, se mostra sempre apreensivo em relação a estranhos que se aproximam na rua e não consegue fixar o olhar em quem conversa com ele. Entrou nas drogas pela maconha e está no crack desde que foi para as ruas do centro. Já perdeu as contas de quantas pedras fuma por dia. "Nem dá mais barato", diz.

Família. Quando os próprios pais são usuários de crack, o ambiente familiar não é suficiente para prover a segurança ao desenvolvimento da criança. É por essa experiência que passa a adolescente J., de 15 anos, moradora de uma pensão na região da cracolândia. A jovem diz que só usa maconha, mas está cercada de crack por todos os lados. "Minha mãe não fica suja na rua, como esses daí (usuários). Ela me dá tudo o que eu preciso, trabalha, mas usa crack."

A adolescente vivia em Belo Horizonte, até um ano atrás, e foi trazida pela mãe para São Paulo. Ela vivia com o pai, também usuário de crack. "Se estivesse por lá, já teria morrido. Eu me metia em coisas muito erradas", diz. A jovem não vai à escola há dois meses e critica o lugar onde mora atualmente. "Eu não aceitava viver aqui no meio da cracolândia, mas me conformei." / ADRIANA FERRAZ e WILLIAM CARDOSO

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