Daniel Teixeira/Estadão
Daniel Teixeira/Estadão

Capital paulista tem 275 pontos de droga, 80% com crack

Levantamento inédito do Denarc nas chamadas biqueiras indica ainda que crack se disseminou e já é vendido em 80% desses locais

Felipe Resk e Marco Antônio Carvalho, O Estado de S.Paulo

19 Maio 2018 | 03h00

SÃO PAULO - Levantamento inédito do Departamento Estadual de Narcóticos (Denarc) aponta que há ao menos 275 pontos de venda de droga no varejo na cidade de São Paulo. O mapeamento indica, ainda, que o crack se disseminou e já é vendido em cerca de 80% das biqueiras – como são chamados os locais de tráfico. Com a expansão do comércio, a Polícia Civil, agora, também mira as áreas denominadas de minicracolândias e planeja operações.

+ Ação reduz Cracolândia, que resiste fragmentada

O Denarc considerou locais que registraram mais de uma prisão por tráfico. A análise do mapa mostra que as biqueiras estão em todas as regiões, sem se concentrar em área específica. O levantamento é considerado estratégico pela Polícia Civil, uma vez que esses pontos financiam o crime organizado.

Como se trata do primeiro estudo a respeito pelo Denarc, não é possível fazer comparações do número de biqueiras na cidade. Segundo investigadores, porém, há uma constatação de que houve avanço da venda de crack em São Paulo.

Para o sociólogo Luís Flávio Sapori, pesquisador da Pontifícia Universidade Católica de Minas (PUC-MG), o usuário tem perfil “muito compulsivo”, o que ajuda a explicar a expansão da droga. “Apesar de não ser a mais consumida – posto que é da maconha, seguida pela cocaína –, o crack cria um mercado amplo e lucrativo de usuários que compram uma grande quantidade de pedras”, afirma.

Na visão de Sapori, prisões de usuários e traficantes não resultaram no recuo da droga, que expandiu de São Paulo, no início dos anos 1990, para o Nordeste, nos anos 2000. “A repressão não funcionou e a área da saúde pública tem se omitido, deixando a responsabilidade para as polícias.”

Minicracolândia. Com a disseminação de biqueiras, a Polícia Civil tem mirado áreas chamadas de minicracolândias, onde há concentração de usuários fora do centro. Na avaliação de policiais, a fragmentação dos “fluxos” facilita a realização de operações contra o tráfico.

Uma das regiões é a Avenida Roberto Marinho, na zona sul, onde dependentes fumam sob viadutos e obras do Monotrilho. Ao longo da avenida, os usuários armam barracas e acendem fogueiras. “Para trabalhar aqui, tem de ficar atento”, diz o comerciante Geraldo Santos, de 61 anos, que teve o comércio invadido na semana passada. O suspeito foi preso.

Investigações em curso apontam que o tráfico da região é comandado, de dentro da cadeia, por um membro do Primeiro Comando da Capital (PCC). Policiais encontraram armas em batidas na Roberto Marinho. Recentemente, houve confronto e um suspeito morreu.

Em abril, o Denarc fez operação na região do Ceagesp, zona oeste, que prendeu 21 pessoas suspeitas de usar um conjunto habitacional para esconder drogas e abastecer o “fluxo” na frente do entreposto. A ação seguiu os moldes da realizada na Cracolândia, em maio de 2017.

Moradores de rua acampam no gramado na frente do Ceagesp e usuários de droga procuram ruas laterais para fumar. “Estou procurando me estabilizar para mudar de vida”, diz o manobrista André Arruda, de 41 anos, que, por causa do crack, está sem emprego e perdeu o contato com a mulher e o filho. “Tenho fé em Deus que vai mudar.”

Tanto na Avenida Roberto Marinho quanto no Ceagesp, existem Atendes, equipamentos de assistência social da Prefeitura voltados para redução de danos de usuários, com 292 vagas.

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