Daniel Teixeira/Estadão
Daniel Teixeira/Estadão

Capela que 'flutuava' a 31 m de altura reabre em megaempreendimento de SP

Templo católico foi restaurado e recebeu vitral do artista Vik Muniz; complexo bilionário Cidade Matarazzo também vai inaugurar hotel seis estrelas em antiga maternidade em dezembro

Priscila Mengue, O Estado de S.Paulo

13 de novembro de 2021 | 05h00

Mesmo enquanto parecia “flutuar” a 31 metros de altura durante escavações de pavimentos subterrâneos em uma obra de engenharia que chamou atenção pública, a quase centenária Capela Santa Luzia estava em um restauro. Procedimentos variados, como a retirada de camadas de tinta, revelaram as características e os afrescos originais do templo católico, que reabrirá após décadas neste sábado, 13.

O evento contará com uma celebração religiosa para convidados e autoridades, conduzida pelo arcebispo de São Paulo, cardeal D. Odilo Scherer. Fechado, o evento também marcará a inauguração do primeiro espaço do mega complexo bilionário de luxo, moda, gastronomia, hotelaria, negócios e cultura Cidade Matarazzo, implantado no antigo Hospital Umberto I, a uma quadra da Avenida Paulista, no centro expandido. 

Esta será a primeira de uma série de inaugurações da primeira fase do complexo. A seguinte ocorrerá em 15 de dezembro, com abertura da antiga maternidade, transformada no Hotel Rosewood, de seis estrelas, e em restaurantes. 

O cronograma de aberturas é paulatino até abril. Ele abrange outros espaços gastronômicos (incluindo o novo do chef Felipe Bronze), o restante do hotel (em uma torre assinada pelo premiado arquiteto francês Jean Nouvel), um espaço de eventos e o edifício de escritórios desenhado pelo escritório francobrasileiro Triptyque (em parceria com o arquiteto francês Rudy Ricciotti). O restante das inaugurações, voltadas especialmente à moda (com 70 marcas de luxo exclusivas e 69 artesãos) e cultura (incluindo um teatro multiuso com 22 horas de programação diária), ficará para 2023.

Em paralelo, após não obter liberação para a criação de um boulevard que ligaria o espaço até a Avenida Paulista, o grupo responsável pela Cidade Matarazzo (Grupo Allard) está adaptando ideias do projeto para os dois parques da via, cuja concessão pública venceu (embora ainda dependa de homologação) em parceria com uma empresa brasileira. 

Entre as novidades planejadas, está a transformação do Parque Mário Covas em um espaço agroambiental e a instalação de uma escultura de 185 metros de comprimento no Tenente Siqueira Campos (Trianon), que poderá ser percorrida internamente pelo público para ter acesso a conteúdos sobre florestas. A concessão inclui, ainda, a Praça Alexandre de Gusmão, que terá uma temática voltada ao feminino. 

As ideias foram anunciadas em um evento na COP 26, com participação do empresário francês Alexandre Allard, idealizador do projeto, e do governador paulista, João Doria. Ao Estadão, Allard falou em “ambição verde” e no desejo de fazer uma transformação na Avenida Paulista. “(Para) Virar o maior centro cultural aberto e verde do mundo.”

‘Tudo sempre começou em uma capela’

Como outras tantas cidades brasileiras, a Cidade Matarazzo também cresceu em volta de um templo católico, de acordo com comparação de Allard. “Tudo sempre começou em uma capela. A capela é um símbolo do trabalho que fizemos aqui, de mostrar que o caminho da preservação, do cuidar, é o caminho do futuro”, afirmou.

Ele se refere especialmente à grande obra de escavação que exigiu a sustentação aérea da capela por quase dois anos para a criação de oito pavimentos subterrâneos, incluindo o centro de eventos. “Todo mundo conhece as imagens da capela ‘voando’. Isso define a ambição do nosso projeto. Nós estamos aqui pra mostrar que o futuro do Brasil é o futuro da preservação.”

Allard considera que as soluções estruturais adotadas foram importantes também pela aplicação de técnicas pouco comuns no País. Para tanto, um dos nomes que cita como fundamentais foi o do engenheiro Mario Franco, italiano radicado no Brasil, que participou do projeto até perto do fim da vida, em 2019, aos 90 anos, e cujos cálculos feitos à mão foram guardados para o acervo visual da história da obra (que estará disponível por um app de realidade aumentada).

Durante as escavações, os trabalhos dentro da capela continuaram. “O pessoal estava cavando e a gente restaurando em cima. A estrutura nestes casos sempre mexe, mas não pode mexer muito, por isso, havia um monitoramento”, conta o arquiteto Roberto Toffoli, que liderou os trabalhos de restauro.

A capela foi erguida por iniciativa de Virginia Matarazzo, cunhada do industrial Conde de Matarazzo, após a cura de um filho adoentado. Ela foi inaugurada em 1922, destacando-se pela fachada neoclássica e os vitrais art déco coloridos e geométricos, que remetem a flores, frutas e outros elementos da natureza.

Uma das características da restauração foi a manutenção das “marcas do tempo” das peças e da capela, em vez da adoção de técnicas que corrigissem o enfraquecimento das cores e outras imperfeições. O trabalho foi interpretado como de recuperação das características originais e de interrupção da deterioração (agravada ao longo das décadas por problemas de infiltração precedentes à obra), mantendo as “cicatrizes”. 

“As marcas do tempo tem uma poesia, uma essência da nossa própria humanidade. Se escondessem essas marcas, talvez com isso nós perderíamos a energia dessa história. Quando se olha a capela, com as pinturas um pouco desgastadas, transmite-se de uma maneira muito mais forte”, afirma Allard.

Na parte externa, descobriu-se, por exemplo, que o revestimento original era de uma argamassa que imitava tijolos intercalados, técnica comum na Itália há cem anos. Além disso, as paredes internas eram revestidas com a técnica “escaiola”, que dá a aparência de mármore polido, material que compunha o altar.

Ao mesmo tempo, durante os trabalhos de pesquisa bibliográfica e na obra da capela, descobriu-se que originalmente ela teria uma rosácea (espécie de vitral redondo) na fachada, o que foi resgatado com a criação de uma nova pelo artista Vik Muniz, inspirada em Santa Luzia. “Tem um contraste entre momentos históricos diferentes”, descreve o arquiteto Toffoli. A nova peça foi instalada onde antes havia uma marca de cruz.

A capela estará vinculada à Mitra Arquidiocesana. Segundo a Arquidiocese de São Paulo, a próxima celebração após a reabertura será a missa de Solenidade de Cristo Rei, em 21 de novembro, e as atividades pastorais serão iniciadas “tão logo seja finalizado o processo de instauração da reitoria”. A responsabilidade será do padre Maurício Matarazzo Falcão, tataraneto da Condessa Filomena Matarazzo.

Megacomplexo inclui torre com 200 árvores nativas

Com investimento de R$ 2,7 bilhões, o complexo ocupa uma área de 27,4 mil metros quadrados, onde o antigo Hospital Umberto I funcionou de 1904 a 1993 e cujas edificações são tombadas em nível estadual desde 1986. O empreendimento manteve 10 construções originais, como a Maternidade Condessa Filomena Matarazzo (de 1943), enquanto as demais foram demolidas após o conselho estadual de patrimônio mudar a resolução de proteção, que permanece para os demais espaços históricos.

Segundo Allard, cerca de 2 mil pessoas atuam hoje na obra, que envolve uma cadeia estimada de 15 mil trabalhadores diretos e indiretos. “É um trabalho de logística que ‘ufa’ (suspira), até agora não consigo entender como tudo isso está funcionando”, diz.

No complexo, um dos principais projetos é o da Torre Mata Atlântica, do arquiteto francês Jean Nouvel, o mesmo do Louvre de Abu Dhabi e de outras obras culturais e de luxo na Europa e no Oriente Médio. O edifício foi concebido para ser uma extensão vertical das 10 mil árvores que irão compor o complexo. Ele vai abrigar mais de 200 exemplares adultos nas áreas externas (que começaram a ser plantados em setembro, incluindo ipê-roxo, araçá, aldrago e outros).

A torre tem 25 andares, com 104 quartos de hotel e 122 suítes privativas (para moradia, cujo metro quadrado é vendido a R$ 66 mil se incluir o mobiliário e a decoração elaborados pelo designer francês Philippe Starck, sendo que as unidades têm de 112 a 519 metros quadrados). Ela inclui, ainda, jazz bar, terraços, salão de bailes e outros espaços, parte deles abertos ao público.

Outro destaque arquitetônico é o Edifício Ayahuasca, cuja fachada está recoberta de cipós gigantes de cimento, que serão cobertos por plantas trepadeiras até a inauguração. O desenho desta parte do prédio é do arquiteto francês Rudy Ricciotti, o mesmo do Museu das Civilizações da Europa e do Mediterrâneo (MuCEM), na França. Ao todo, o espaço tem cinco lajes de escritórios, que poderão abrigar empresas e ONGs.

Há, ainda, o desenvolvimento de um aplicativo de rede social, com troca de informações e interatividade a respeito de temas alinhados com as propostas do complexo, como sustentabilidade, bem-estar, alimentação saudável e cultural. “Vai juntar uma comunidade hoje pulverizada”, descreve Allard.

 

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