Helvio Romero / Estadão
Helvio Romero / Estadão

'Cão terapeuta' acolhe crianças refugiadas

Animais de ONG fazem visitas em casa de passagem em SP; ideia é criar ambiente lúdico

Luiz Fernando Toledo, O Estado de S.Paulo

29 Maio 2016 | 05h00

SÃO PAULO - Quando o cão Nick chega, as crianças se assustam. Gilberto, de 5 anos, leva as mãos aos olhos, em um misto de vergonha e medo. Antonica, de 2, observa à distância, sob a proteção dos braços maternos de Paulina, de 36. Cães domésticos não são exatamente comuns em Angola, de onde a família acabou de chegar, há dois dias, refugiada.

Mas o olhar dócil e os pelos macios do golden retriever não intimidam Tatiana, de 9 anos, a primeira a abrir um largo sorriso e tirar os irmãos do território desconhecido, uma sala na Casa de Passagem Terra Nova, na República, região central de São Paulo. A família é uma das primeiras no Estado a participar de uma terapia com cães para refugiados, na Casa de Passagem Terra Nova, na República, região central de São Paulo. O local tem cerca de 50 famílias, a maioria de mulheres solteiras e crianças vindas de Angola e do Congo.

É tudo novo. Comida, ambiente, idioma, costumes. O que as palavras ainda não expressam bem no Português, o olhar traduz. Por cerca de uma hora, Tatiana e a mãe deixaram de lado a viagem que começara no dia 10 e só acabaria duas semanas depois, ao desembarcar no Aeroporto de Cumbica. O foco agora são os pelos de Nick. "De que parte você mais gosta de fazer carinho nele?", perguntam à menina. "Da orelhinha", diz, disparando gargalhadas quase rítmicas. "É fofo, né?".

A mãe, acomodada no sofá, prefere não explicar o motivo de precisar ter fugido do país às pressas. "Só queria sossego", contou. Do Brasil, Paulina só sabia o nome e meia dúzia de programas de TV. "Novela, muita novela. Gosto de Dez Mandamentos", disse. Conversou com o marido assim que chegou, mas não sabia por onde começar. E o que teriam conversado? "Da vida", resumiu, sem detalhes. Preferia assistir à filha brincando no chão, agora levando Nick para beber água.

A brincadeira é vista com certo ceticismo pela cabeleireira angolana Juliana, de 29 anos. Está na casa desde agosto do ano passado. A expressão é séria e fechada. A atenção se volta quase que exclusivamente à filha Elisandra, de apenas 15 dias, em seu colo. Elisio, o filho mais velho, de 5 anos, também fica com um pé atrás. Nos primeiros momentos, brinca em um notebook com auxílio de uma pedagoga. Mas a empolgação da nova amiga Tatiana contagia e logo ele desiste da tecnologia e se entrega ao bicho. Gilberto, ao lado da mãe, espia entre os dedos, ainda sem coragem de se aproximar.

"Quando cheguei no Brasil eu só chorava", contou Juliana. Saiu do país sem nem falar com a família - o marido sequer tem informações de seu paradeiro. "Pedi refúgio e vim para o Brasil sem nem saber onde era. Nem perguntei. O mais importante era sair de lá para ter paz". O motivo, esclarecido mais tarde por funcionários da casa, é que a jovem, protestante, sofreu perseguição do governo local e até da própria comunidade.

Mesmo depois de por os pés na capital paulista, os problemas continuaram. "O taxista me deixou no lugar errado, em um ponto qualquer no Brás. Não sabia para onde ir, não sabia o português. Foi um desespero". Por sorte, encontrou um grupo de africanos no bairro que ofereceram ajuda e até pagaram hotel para que não ficasse na rua. De lá foi encaminhada à Caritas, entidade que atua com refugiados, e em seguida, para a casa de passagem. Descobriria, semanas depois, que estava grávida.

"Hoje só quero um futuro para os meus filhos. Já aprendi o português e agora estou em busca de um emprego. Quero estudar, fazer faculdade. Mas está tudo muito difícil", contou. A chegada de Nick, no vendaval de acontecimentos, era uma pausa em tudo isso.

Aproximação. A experiência com Nick pode parecer brincadeira, mas a entidade que criou o programa, o Instituto Nacional de Ações e Terapia Assistida por Animais (Inataa), assegura que há embasamento científico e resultado. O projeto é piloto no Estado de São Paulo e tem apoio da Secretaria de Desenvolvimento Social, responsável pelo abrigo.

"O cão não traz os preconceitos que um ser humano traz. O toque é prazeroso, o diálogo é outro. A ideia é auxiliar quem chega, criar um ambiente lúdico de  receptividade", explica a psicóloga Cristiane Blanco, do Inataa. "Um dos objetivos é quebrar uma barreira. Falar com um ser humano é mais difícil. A criança não fala o mesmo idioma, não conhece os costumes. Com o cão não tem essas regras. Você não precisa falar a mesma língua para interagir e pode-se brincar de qualquer forma", disse a especialista. 

A instituição atua desde 2008 em asilos e hospitais, mas é a primeira vez que cria um projeto para refugiados. Os cães são trazidos voluntariamente por seus donos e passam por uma espécie de triagem antes para verificar se toleram barulho e ambientes com muitas pessoas.

A prática lúdica é parte de uma série de atividades realizadas com as crianças. De acordo com a pedagoga da casa de passagem, Simone Fernandes, o histórico dos refugiados faz com que eles cheguem assustados à casa. "A gente sente que as crianças estão muito assustadas. O primeiro passo é inseri-las na rede de ensino e depois checar como está a saúde. A partir daí, apresentamos questões culturais da cidade e fazemos atividades na brinquedoteca", disse. 

A primeira sessão de terapia foi em abril e, desde então, os encontros ocorrem uma vez por mês. Tempo demais para Elísio, que já pede à Juliana para ter um cachorrinho quando estiverem em um novo lar. Por alguns instantes, a humanidade que lhe foi roubada se resgata ao ver o menino, feliz, esquecer de uma vida de terror que ficou para trás.

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