Cantor sertanejo conta como tentou vender o próprio rim

Internet se transformou em balcão de anúncios para o comércio ilegal de órgãos humanos

Barbara Souza, do Jornal da Tarde,

03 de abril de 2008 | 00h37

Ele se preparava para estourar nas paradas de sucesso com um CD de música sertaneja, gravado em 2000, quando o companheiro com quem fazia dupla sofreu um acidente de moto. Com o contrato cancelado, as mordomias foram cortadas e o nome voltou ao anonimato. E., de 38 anos, virou cantor de churrascaria, pedreiro, vendedor de cachorro quente, segurança. Nenhuma ocupação, diz, era suficiente para dar uma casa e vida digna à mulher e às três filhas . Cansado de ver as portas se fecharem, E. decidiu, mesmo contra a vontade da mulher, com quem está há 19 anos, vender o próprio rim. Depois a medula e, se possível, uma córnea.  Veja também:Internet vira balcão para venda de órgãos Você usa o termo doar ou vender?Então, aí é uma faca de dois gumes. Vamos dizer que eu decidi vender e a doação é para quem estará recebendo. Eu vou receber por isso. Então vamos colocar que é vender. Por quê?Como você percebeu, é a necessidade financeira. Tenho urgência de tirar minha família daqui, de conseguir uma casa própria para nós. Esta casa aqui é da minha sogra e tenho necessidade de tirar as minhas crianças, tá aumentando a minha família, e eu não posso ficar aqui. Pra você ver, nós conseguimos subir um pouco o teto, que era de brazilit, um metro e meio. Com três crianças aqui, não ia dar. Quando faz calor, nós temos que ficar lá fora. A gente coloca cama, colchão lá fora, pra gente conseguir dormir, porque aqui não dá. Então a única esperança é conseguir vender esse rim, para poder obter um dinheiro e comprar a casa própria. Como músico não dá para se sustentar?Eu faço uns bicos de músico, mas o cachê hoje é simbólico, você ganha R$ 80 por baile. Então é difícil. Eu gravei um CD muito bom, mas meu parceiro sofreu um acidente, perdeu a perna e a gravadora cortou o contrato e acabou a minha carreira. Mas graças a Deus fiquei com as pernas, o que não foi o caso dele. Mas a opção é vender o rim. Estou analisando a possibilidade de vender uma córnea, também. Mas compensam o risco e a deficiência que você vai ter depois?Como eu disse, para ver a felicidade da família, da minha esposa, das minhas filhas, é válido, compensa. E eu sempre digo: eu dou uma perna pelas filhas, dou um braço. O que precisar eu tiro, eu dou, pode cortar, pode amputar, sem anestesia, para ver minha família bem. E acho que é compensador depois você ver a sua família numa casa boa, numa casa espaçosa, abrir a geladeira e saber que tem tudo, que elas não vão ficar pedindo o que não têm. É válido. Como você soube dessa história de venda de rim?Pela internet. Estava mexendo numa noite e coloquei alguma coisa sobre rim, porque um amigo meu tem problema de rim, e eu fui verificar qual o problema ele tinha e a primeira coisa que apareceu foi "vendo meu rim". Foi aí que decidi  Depois disso você ouviu casos de pessoas que conseguiram vender ou comprar?Não. Ainda não sei de nenhum caso de pessoas que concretizaram a venda. Vejo muito na internet a venda de rim, de córnea, de medula óssea. Até medula depois a gente vai estudar vender. Mas concretizado, não. Quando você postou essa mensagem?No fim do ano passado. Tive 12 retornos, inclusive um de Portugal. Ele vem para o Brasil este mês. Não sei se é ele quem sofre do problema ou algum parente, e ele quer entrar em contato comigo assim que chegar aqui, para fazer alguns exames e para ver se é compatível ou não. E vou postar um outro agora com a córnea. E essa história da córnea, você pensou quando?É uma história que está amadurecendo na minha cabeça. Ontem mesmo estava olhando um rapaz vendendo a córnea, a medula e o rim. O que vier primeiro. Se tiver uma pessoa precisando de uma córnea, que me pague o que dê para comprar uma casa, eu faço.  Você enxerga bem dos dois olhos?Eu uso óculos para miopia, mas enxergo. Para quem não tem nada, se pelo menos ele usar óculos, já vai ter um olho funcionando. Já fez alguma cirurgia? Você encara os riscos de uma operação?Já fiz de apendicite. É um risco, a vida é um risco, você tem que jogar para ver se vai ganhar. Eu encaro. Vou tomar um calmante antes, para ver se eu encaro. Mas só o prazer de depois ver a minha família dentro de uma casa, que é dela, que ninguém tira. Sem chuva dentro, que elas abram a geladeira e peguem Danone, um leite, um iogurte, não falte nada, arrisco. Você não fala em valor?Não falo, porque estou por fora do valor. Eu vejo na internet que eles postam por R$ 100 mil, R$ 150 mil. Posso dizer que seria acima de R$ 100 mil, porque com R$ 50 mil hoje você não compra. Você até compra uma casa, mas eu quero comprar uma casa e colocar um dinheirinho no banco. Se me acontecer alguma coisa, esse dinheiro no banco vai ajudar a sobrevivência delas por um tempo. O que aconteceu para vocês pararem nessa situação?É uma associação de coisas erradas que foram acontecendo. Nós compramos um carrinho de lanche, não deu certo. Fomos embora de Taubaté, há quatro anos, vendemos tudo o que tínhamos, e fomos para Recife, tentar a vida lá, porque minha mãe disse que poderia ajudar a gente. Vendemos tudo. Só que chegando lá, não foi nada disso. Quebramos a cara de novo, voltamos. Graças a Deus conseguimos com doações, nos reerguermos, temos móveis. Se a gente passa alguma necessidade, falta um leite, um açúcar, nossa vizinha é quem supre a gente. Um ato de desespero te leva a cometer muitas coisas. E uma delas foi eu colocar meu rim à venda. E você é a favor desse comércio na internet?Desse livre comércio de órgãos? Não, de maneira alguma. Só faz isso quem realmente está necessitado. Eu sou totalmente contra. Se o governo pudesse tomar uma atitude contra isso... Espero que ele tome uma atitude depois que eu conseguir vender o meu. Por que você é contra?Porque eu não acho direito. Se Deus te deu dois olhos, dois rins, é porque você precisa ter dois. Se tirar um, quem tem dois, tem um. Quem tem um, não tem nada. Eu estou ciente disso, estou ciente que vou ser privado de tomar uma garrafa d’água, se der complicação, vou ser privado de muitas coisas. Já tive um amigo que tocou comigo, que só lambia a pedra de gelo. Eu tenho medo disso, muito medo, mas há alternativa? Não tenho. A negociação seria como?A pessoa, depois de todos os exames feitos, se for compatível, se concretizar a negociação, penso em colocar um advogado e registrar um documento. E que pague adiantado. A pessoa vai deixar o dinheiro na mão da minha esposa, numa conta dela, e na mesma hora entro no centro cirúrgico. Eu tenho que ter mais duas ou três pessoas do meu lado. Tenho medo de ser seqüestrado. ‘A pessoa já está querendo vender o rim, então vamos matar e tirar os dois’. Tem que estar com o dinheiro na mão e a pessoa vai ter que confiar em mim, porque depois, se eu tomar um calote, não tenho como recorrer. Esse seu amigo precisa de um rim também?Ele precisa, só que ele não tem condições de pagar. Eu iria doar, de graça, uma vez, não para ele, mas para um músico que tocou comigo. Eu fiquei tão penalizado com a situação dele, que iria doar. Mas não foi compatível. Se tivesse feito essa gentileza, essa caridade, hoje não estaria vendendo. Não tem alternativa?Eu vi esses dias um emprego para trabalhar no Iraque, Baren, Quait. Mas ela (aponta para a mulher) não quis me deixar fazer nem a ficha. Puxa vida, são US$ 15 mil mensais, mais um seguro de vida de US$ 350 mil! Falei: eu vou, se eu voltar, levanta a mão para o céu, porque consegui. Se não voltar, compra a casa, um carro, um outro negócio. Mas ela não quis deixar. O rim, pelo menos, eu tenho 50% de chance de sair intacto disso. E talvez possa viver mais aí uns 50 anos com um rim só. Hoje em dia tem muito recurso, tem a hemodiálise. Mas você não acha uma decisão muito radical?É difícil você ver o sofrimento de um filho, da esposa. Quando chove aqui, chove em tudo, entra água para todo o lado. Vou mexer aqui, aí tomam a casa da gente. Vou colocar o que eu não tenho, arrumar um dinheiro emprestado para reformar a casa e daqui a pouco ela (a sogra) me toma. Sua sogra entrou com uma ação judicial contra vocês?Entrou. E é mãe, é a mãe dela (da esposa), né? Se fosse uma pessoa estranha, até daria razão. Ficamos quatro meses sem luz, porque era um poste só. Ela deixou de pagar as contas e cortaram a luz. Se não fosse a bondade do meu vizinho para ceder um fio de luz para ligar a geladeira e colocar o leite dessas meninas, para não azedar, não sei. Então acho que com família a gente não pode contar. Minha família são minha mulher e as minhas filhas. Mesmo ela não aprovando a minha decisão, minha mulher fica do meu lado.  Posso fazer umas perguntas para sua mulher?Sim, claro.Como você ficou sabendo da decisão do seu marido?Depois que ele colocou o anúncio. Mas não aprovo isso, não, de jeito nenhum. Olha a situação: você ver seu marido fazendo uma cirurgia, sem saber se vai sair ou não. Sou totalmente contra. Até quando o primeiro comprador que ligou, acabei discutindo com ele. Eu acho isso um absurdo. Mas também tem o lado financeiro, que pode resolver uma parte dos problemas. Para você não compensa?Para mim, a saúde dele e das minhas filhas é o que importa. Ele se vê na obrigação de dar um futuro melhor, tanto para as meninas, quanto para mim. Mas eu, sinceramente, acho que não. Mas, a decisão é dele, não posso fazer nada. Conversar, já conversei, mas ele bateu o martelo e disse que é isso mesmo o que quer. Eu fico apavorada com essa história.

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