Tiago Queiroz/Estadão
Tiago Queiroz/Estadão

Reflorestamento no Cantareira leva a economia no tratamento de água

Restauração de 4 mil hectares de pastagens degradadas pode levar a economia de R$ 300 milhões, aponta estudo

Giovana Girardi, O Estado de S.Paulo

25 de setembro de 2018 | 04h00

SÃO PAULO - Durante a crise hídrica de 2014, um dos fatores apontados como um problema para o Sistema Cantareira foi a baixa cobertura florestal do entorno. Em toda a bacia, que compreende uma área de 228 mil hectares, apenas cerca de 25% têm mata. Projetos de reflorestamento vêm sendo feitos desde então, com o objetivo de minimizar esse problema, mas ainda ocorrem em pequena escala.

Uma pesquisa feita pelas ONGs World Resources Institute (WRI), The Nature Conservancy (TNC) e Fundação Boticário traz agora um novo argumento para incentivar o plantio: além de ajudar na captação de água, árvores podem trazer economia no tratamento.

O trabalho colocou em números algo que já se percebe na prática: a floresta retém a erosão e diminui a quantidade de sedimentos nos rios. Um reflorestamento de 4 mil hectares - apenas 2% da área de recarga do reservatório - poderia gerar uma economia de R$ 300 milhões somente no tratamento da turbidez da água, estimam as organizações.

O cálculo será apresentado nesta terça-feira, 25, com o lançamento do relatório "Infraestrutura natural no sistema de abastecimento de água de São Paulo", obtido com exclusividade pelo Estado

De acordo com o estudo, que considerou somente o reflorestamento em áreas de pastagens degradadas, o investimento necessário é de R$ 120 milhões, incluindo a manutenção das florestas restauradas, com um retorno financeiro de 28% - taxa compatível com a observada no setor de abastecimento.

A ideia foi mapear áreas prioritárias para a restauração e assim obter os melhores resultados. "Se esse investimento fosse usado para restaurar aleatoriamente na bacia, a redução de sedimentos poderia ser de 8%. Mas em pastagens degradadas, que são mais suscetíveis à erosão, a redução pode chegar a 36%", calcula o economista do WRI Rafael Feltran-Barbieri, um dos autores do trabalho. 

A Companhia de Saneamento Básico do Estado de São Paulo (Sabesp) - principal beneficiária da estratégia - é o alvo do estudo. "Queremos mostrar que conter os sedimentos com o reflorestamento vai evitar um custo maior no tratamento da turbidez lá na frente", complementa Rachel Biderman, diretora do WRI-Brasil. 

Ela lembra que a restauração pode tornar o sistema também mais resiliente, em especial diante de um cenário de mudanças climáticas, que pode mudar o regime hídrico, levando extremos - muita chuva alternada com muita seca.

A Sabesp informa que já vem fazendo essa restauração nas terras de sua propriedade - que correspondem a cerca de 7% do sistema. Segundo Mara Ramos, gerente de Recursos Hídricos da empresa, a cobertura florestal nesses locais passou de 61% na década de 1980 para 75% hoje.

"Chegamos a 35 mil hectares, o equivalente ao município de Guarulhos", diz.

A Secretaria Estadual do Meio Ambiente também realiza alguns projetos na região, dentro do Programa Nascentes. Segundo a pasta, eles cobrem 446,7 hectares.

Para os autores, porém, como as duas iniciativas abrangem áreas ainda muito pequenas em relação à toda a bacia, o impacto é insuficiente. É preciso investir nas áreas privadas.

Na prática

Pioneiro em reflorestamento, o consultor de tecnologia Marcelo Mig, de 60 anos, que tem um pequeno sítio em Joanópolis, no braço do Rio Jacareí, que abastece um dos reservatórios, defende a ampliação. Cinco dos seis hectares de sua propriedade são hoje floresta - resultado de um trabalho de conservação e restauração que começou há 29 anos justamente em áreas de pastagem degradada. 

"Na crise hídrica, enquanto meus vizinhos ficaram com o poço sem água, o meu aguentou ainda mais um ano", lembra. Hoje alguns deles estão seguindo seu caminho. "Agora a represa está baixa de novo, vemos uma faixa enorme de terra exposta, suscetível à erosão. Na crise, quando ela baixou totalmente, dava para ver como tinha assoreamento no fundo. As árvores evitam isso", ensina.

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