Cantareira: apesar de risco, Alckmin aposta em chuvas

Governador ainda não decidiu por racionamento; comitê anticrise recomendou envio de menos água do sistema para São Paulo

Fabio Leite e Pedro Venceslau , O Estado de S. Paulo

01 Março 2014 | 00h01

SÃO PAULO - Mesmo diante da pior estiagem da história no Sistema Cantareira, o governador Geraldo Alckmin (PSDB) aposta nas chuvas de março para decidir se haverá ou não racionamento de água generalizado para cerca de 14,3 milhões de habitantes da Grande São Paulo e da região de Campinas que são abastecidos pelo manancial.

O comitê anticrise criado para monitorar a situação do Cantareira já recomendou que a Companhia de Saneamento Básico de São Paulo (Sabesp) reduza o volume de água captado para a Região Metropolitana para evitar um possível colapso do sistema no período de seca, no meio do ano, quando será realizada a Copa do Mundo. Segundo fontes do governo, a medida implicaria em um racionamento de água imediato para a região.

Sua aplicação, contudo, depende do aval do governador. Após semanas descartando a prática, Alckmin afirmou nesta semana que a decisão sobre um possível rodízio de água seria "técnica". Nesta sexta-feira, 28, em Campinas, ele afirmou que a Sabesp não tem plano de racionamento e que a recomendação do comitê é avaliar a crise do Cantareira nas próximas semanas. "O tempo também certamente vai nos ajudar, já que as chuvas têm vindo", disse Alckmin.

O relatório com a recomendação do comitê anticrise deve ser divulgado depois do carnaval pela Agência Nacional de Águas (ANA), do governo federal, e pelo Departamento de Águas e Energia Elétrica (DAEE), do Estado, gestores do Cantareira.

Em nota, o DAEE informou que o comitê não recomendou "um dia específico para eventual redução do volume de captação de água pela Sabesp" e que a medida "não implica, automaticamente, restrição de consumo pela população". A ANA e a Sabesp não se manifestaram sobre a recomendação.

O Estado apurou que Alckmin deve esperar cerca de dez dias para avaliar se o rodízio de água, visto como uma medida desgastante no ano em que tentará a reeleição, é mesmo inevitável. Caso não haja opção, o governador deverá aguardar o melhor momento político para anunciar o corte.

Alckmin espera também que a população economize ainda mais água com o programa de descontos de 30%, criado pela Sabesp, para quem reduzir o consumo em ao menos 20%.

O comitê das bacias dos Rios Piracicaba, Capivari e Jundiaí (PCJ), que abastecem o Cantareira, prevê em relatório divulgado nesta sexta que chova entre 25 mm e 50 mm na região até terça-feira. O volume, contudo, é inferior ao que foi previsto para os cinco dias anteriores, de 50 mm a 100 mm. Nesse período, o acúmulo de água nas represas do manancial foi de apenas 18,7 mm, segundo o monitoramento feito pela Sabesp.

Em queda. Nesta sexta-feira, 28, o nível útil do volume de água do Cantareira caiu novamente, atingindo 16,4% da capacidade, o menor da história. Segundo o primeiro relatório do comitê anticrise, revelado pelo Estado na semana passada, o volume útil do manancial vai se esgotar em agosto se o cenário de estiagem for igual ao de 1953, o pior de sua história.

O grupo recomendou que a Sabesp elaborasse um plano para captar o chamado "volume morto", cerca de 400 milhões de metros cúbicos do fundo dos reservatórios.

A empresa anunciou quinta-feira, 27, que vai investir R$ 80 milhões na compra de 20 bombas para iniciar a captação profunda em dois meses. O volume morto fica abaixo do nível dos dutos que captam a água no fundo das represas. Diferentemente do restante da água, que é captada pelos dutos pela força da gravidade, o líquido do volume morto precisa ser sugado.

O problema é que o monitoramento do comitê anticrise revela que a seca deste ano está ainda mais crítica do que a de 1953. Naquele ano, as vazões médias do sistema nos meses de janeiro e fevereiro foram de 24,5 e 29,1 m³/s, respectivamente. Neste ano, os índices foram de 14,3 m³/s em janeiro e apenas 8,5 m³/s em fevereiro.

Só no mês passado, a vazão média de água liberada para a região de Campinas e para a Grande São Paulo foi de 32,6 m³/s, o que criou um déficit de 24,1 m³/s. / COLABORARAM MARIA DO CARMO PAGANI, ESPECIAL PARA O ESTADO, E RICARDO CHAPOLA

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