Candidatos da USP defendem inclusão

Professores que disputam reitoria alertam para manutenção da excelência do ensino

BRUNO PAES MANSO, PAULO SALDAÑA, O Estado de S.Paulo

04 Dezembro 2013 | 02h07

Wanderley Messias, de 62 anos, é professor do Departamento de Geografia da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo (USP) e foi superintende de Relações Institucionais da atual reitoria. Marco Antonio Zago, de 66, vem da Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto e foi pró-reitor de Pesquisa. No dia 19, eles concorrem com outras duas chapas à eleição para reitor da USP.

Os outros dois candidatos serão sabatinados hoje na TV Estadão. Messias e Zago defenderam a ampliação do sistema de bônus para aumentar a participação de estudantes da escola pública na USP. Hoje, há um adicional de 20% na nota na primeira fase do vestibular e mais 5% caso sejam pretos, pardos ou indígenas. Eles falaram sobre esse e outros temas no debate.

BÔNUS À ESCOLA PÚBLICA

Zago: A USP precisa fazer mais. Isso porque, além de centro produtor de conhecimento e de formação, a USP tem de ser instrumento de mudança da sociedade. Quando consideramos apenas o vestibular, o sistema não seleciona os maiores talentos da sociedade, mas os mais bem treinados. A inclusão de bônus foi uma solução intermediária razoável, que permitiu aumento da inclusão, mas não é uma discussão encerrada. Precisa prosseguir. Existem alternativas que nos permitiriam aumentar a inclusão social e racial sem cair na questão maniqueísta de cotas, que divide as opiniões na USP.

Messias: Eu sou otimista. A USP está dividida em relação a essa questão, o que já é um avanço. Antes, era majoritariamente contra qualquer discussão. Tanto que há dez anos só foi possível adotar o Inclusp, que era estímulo para aumentar a inclusão de alunos da escola pública. E aumentou. Passou de pouco menos de 20% para 28%. Temos de chegar a 50% em 2018, sendo 35% pretos, pardos e indígenas. Como fazer isso é o ponto. Não acredito que pelo sistema de bônus alcançaremos a meta. Temos de melhorar esse sistema, testar primeiro no ano que vem, depois em 2015 para aumentá-lo e aprofundá-lo.

EXPANSÃO X EXCELÊNCIA

Zago: Entendo que a USP está muito grande e precisamos tratar o crescimento com cautela. Também achamos que a resposta da USP aos R$ 4,5 bilhões que a sociedade paulista coloca por ano não é suficientemente vigorosa. A sociedade espera mais da USP. Particularmente na formação de alunos de graduação em cursos que tenham relevância para a sociedade. Mais que isso. A evasão dos cursos de graduação é de 25%. Se focarmos na qualidade e reduzirmos a evasão podemos entregar à sociedade formados 2 mil alunos a mais. Há outros aspectos: inovação, transferência de conhecimento, interação com setor produtivo, tudo isso é uma missão que apenas a USP pode fazer.

Messias: Essa demanda por expansão é real. Toda semana chega algo de prefeito, vereador, deputado pedindo curso novo da USP. É preciso distinguir o que é qualificado ou não. Por exemplo, cursos de Engenharia é uma demanda qualificada. O Brasil precisa de 65 mil engenheiros por ano e forma 30 e poucos mil. Existem três tetos para pensarmos nos limites de uma expansão infinita. Primeiro é o do orçamento. Estamos no limite. O segundo é o da qualidade da gestão acadêmica. Não adianta abrir a USP para novos alunos se não resolvermos problemas existentes. O terceiro é a qualidade da gestão administrativa. Nossa gestão é pouco profissional, pouco criativa e prejudica a eficiência geral.

RELAÇÃO COM A CIDADE

Messias: A verdade é que fazemos muita coisa, mas não há muita organização. Nossos museus prestam um ótimo serviço, nossa Faculdade de Educação tem programas para escola pública, várias unidades fazem extensão em meio ambiente, cultura, capacitação, há cursos para terceira idade, cursinhos vestibulares. Tudo de forma meio caótica. Só que dois eixos poderiam ser mais explorados. Um deles são os museus. São Paulo precisa de museus, sobretudo com as características dos nossos, que são interativos, voltados à educação. A outra área é a própria Cidade Universitária. Eu já fui prefeito e sei da pressão da população para abrir os muros e propiciar acesso em geral para usufruir de espaço importante. Acho que podemos caminhar por aí.

Zago: Também entendo que a contribuição da USP deve passar pelos museus e a abertura do câmpus. Mas vai além disso. Nós temos uma competência invejável em qualquer área do conhecimento técnico e científico, que deve ser colocada à disposição da sociedade, da cidade e Estado. E por isso todos os aspectos da pesquisa científica e tecnológica têm de ter um link com a sociedade. Um exemplo disso foram os núcleos de apoio à pesquisa, com integração multidisciplinar em favor de um tema de interesse da sociedade. Passa pela questão da educação, onde a USP tem contribuição pequena, principalmente a educação secundária. Passa pela divulgação científica também. Deve haver forte programa de divulgação científica, maior do que o existente hoje.

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