Candidatos criticam gestão atual da USP

Professores que disputam o cargo de reitor apontam erros na condução do orçamento, o que teria agravado a situação financeira

Bruno Paes Manso e Paulo Saldaña, O Estado de S.Paulo

05 Dezembro 2013 | 02h14

José Roberto Cardoso, de 64 anos, é professor do Departamento de Engenharia de Energia e Automação Elétricas e Diretor da Universidade Politécnica. Hélio Nogueira da Cruz, de 64, é professor da Faculdade de Economia, Administração e Contabilidade e foi vice-reitor na atual gestão. No dia 19, eles concorrem com outras duas chapas à eleição para reitor da USP e nessa quarta-feira, 4, participaram de um debate na TV Estadão.

Os outros dois candidatos foram sabatinados anteontem. Cardoso e Cruz apontaram erros na condução do orçamento na atual gestão, o que teria agravado o quadro financeiro da USP, que atualmente compromete mais de 100% da receita com folha de pagamento. Eles falaram sobre como lidar com a situação.

GASTOS EM EXCESSO

Cruz: Num prazo longo, a busca de fontes adicionais de recursos é um caminho que promete, mas isso não trará resultados em um, dois anos. Teremos de fazer cuidadosos contratos de novos trabalhadores, docentes e funcionários. Fechar os ralos. O que causou isso foi um descontrole. Não tinha alguém acompanhando detalhadamente o que era feito. Foram avanços salariais significativos, principalmente em setores técnicos e administrativos. Os investimentos diminuirão, mas precisaremos encher os novos prédios quando ficarem prontos. Precisará haver diálogos, que criarão mais atritos. Só que retomar controles das contas, contendo a bolha de gastos, terá de se impor inevitavelmente. Não pagar a folha e fornecedores pode comprometer a autonomia financeira que o Estado nos concede e permite que façamos contratações, obras sem os entraves de outros entes públicos. Se não trabalharmos bem, talvez o governo se canse da nossa autonomia e tome outras medidas, como, por exemplo, o secretário da Fazenda passar a cuidar das finanças da universidade. O governo não quer fazer isso, mas se a situação financeira for delicada, talvez não haja alternativa. É preciso lidar com o assunto com cautela, conhecimento e conversa.

Cardoso: Fazemos parte da Comissão de Orçamento e Patrimônio, na qual identificamos o problema. O orçamento que fizemos foi jogado no lixo no dia seguinte. Ninguém tomou conhecimento de executar daquele orçamento. A execução foi personalista. Não seguiu o orçamento aprovado. Eu vejo sob outro ponto de vista. Hoje, o comprometimento da folha de pagamento é de 104%. Com a projeção do ICMS, a situação deve melhorar. Teremos de tomar cuidado para que a coisa não fuja de controle. Mas ouviremos as prioridades para não investir em algo que a comunidade não queira. É preciso um pacto na universidade. Se tivermos de apertar o sapato, todo mundo vai saber onde vai doer. Vamos trabalhar em conjunto.

EXPANSÃO X EXCELÊNCIA

Cardoso: Existe pressão para aumento da quantidade de vagas, mas essa expansão não pode ser suportada pela USP. Não tem condição de absorver essa demanda. Tem de ser política de Estado. Junto com governo, deve ser feito um plano de expansão, ver recursos necessários. Aspiramos ser universidade de classe mundial, mas temos quatro vezes mais alunos, em média, do que as universidades de classe mundial. Se aumentarmos muito, viraremos universidade de massa, nem avaliados seremos mais. Não investimos no ensino. Não há ensino em inglês, falha apontada há vários anos. Também caímos em pesquisa, mas no ensino pouco foi investido. Parece que só a pesquisa era importante. Até nas avaliações isso se reflete. O professor que se dedica mais ao ensino é mal avaliado. A pesquisa é importante, mas o ensino também.

Cruz: De fato, a decisão de investir na expansão não é totalmente tomada dentro da universidade. Temos um regime que estabelece que 5,0295% do ICMS vai para a USP. Se a arrecadação cresce 20%, 30%, 40%, virão também esses recursos. Enquanto não abrirmos mão de recursos, teremos de crescer. Precisaremos crescer na graduação, na pesquisa, nas atividades culturais. Vamos crescer modestamente em todas as direções. Não nos assusta o tamanho que temos. Dobramos as vagas nos últimos 20, 25 anos sem perdas. Pelo contrário, houve ganhos. No caso do ranking, neste ano, alguns indicadores mostram queda, depois de a USP crescer nos anos anteriores. São dados que mostram principalmente a fragilidade dos indicadores. Devemos ficar atentos aos rankings, mas eles devem ser vistos criticamente. São excessivamente agregativos, não compreendem o que é uma universidade pública na América Latina, não têm boas informações sobre a qualidade do nosso ensino e a qualidade da pesquisa. Não me assustam essas pequenas variações de índice. Como economista, quando há grandes variações de posições de países de ano a ano e os países não mudam, o problema é o índice. A USP vai bem.

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