Canções e guerra mostram a poesia além da barbárie

Carlos Drummond de Andrade

O Estado de S.Paulo

26 Agosto 2012 | 03h10

"(....) Muitos de mim saíram pelo mar.

Em mim o que é melhor está lutando.

Possa também chegar, recompensado,

com o russo em Berlim.

Mas que não pare aí. Não chega o termo.

Um vento varre o mundo, varre a vida.

Este vento que passa, irretratável,

com o russo em Berlim.

Olha a esperança à frente dos exércitos,

olha a certeza. Nunca assim tão forte.

Nós que tanto esperamos, nós a temos

com o russo em Berlim."

Guilherme de Almeida

"(...) Por mais terras que eu percorra,

Não permita Deus que eu morra

Sem que volte para lá;

Sem que leve por divisa

Esse "V" que simboliza

A vitória que virá:

Nossa vitória final,

Que é a mira do meu fuzil,

A ração do meu bornal,

A água do meu cantil,

As asas do meu ideal,

A glória do meu Brasil."

A guerra mobilizou poetas em todo mundo e virou música. O poeta Guilherme de Almeida é o autor da letra da famosa Canção do Expedicionário, transformada em hino da FEB. A tropa brasileira teve vários compositores entre seus homens, como o sambista Natalino Cândido da Silva, autor do samba Pro brasileiro, alemão é sopa.

Fora do Brasil, o poeta W.H.Auden, que viveu o conflito civil na Espanha, reencontrou o sofrimento com a invasão da Polônia e o descreveu em September 1, 1939 - "The unmentionable odour of death/ Offends the September light". O chileno Pablo Neruda reagiu a Hitler com o Novo Canto de Amor a Stalingrado. Aqui, a guerra entrou em A Rosa do Povo, de Carlos Drummond de Andrade. Exemplo é o poema Com Russo em Berlim.

Apesar de não abrigar um movimento, como os war poets ingleses da 1.ª Guerra Mundial, o Brasil teve soldados poetas, como Geraldo Camargo de Vidigal. Em Trincheira, ele descreve os "cem homens nas trincheiras/ (...), cada qual com sua noite,/ sem luar". O conflito ainda influenciou Cecília Meireles. É dela a homenagem aos pracinhas Pistóia, Cemitério Militar Brasileiro ("Suas armas foram partidas/ ao mesmo tempo que seu corpo").

Nas mãos deles, a poesia não foi inócua, nem se fez ato de barbárie, como o filósofo Theodor Adorno pensou que seria após Auschwitz. / M.G.

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