Câncer de próstata: complicou

Geralmente, o câncer de próstata pode ser curado com a remoção do tumor. Mas, em alguns casos, ele se espalha e pode ser letal. A novidade é que cientistas descobriram os detalhes de como as células cancerosas se modificam e se espalham pelo corpo. A conclusão é que o processo é mais complexo do que se imaginava. Isso sugere que o controle de metástases será mais difícil.

Fernando Reinach, O Estado de S.Paulo

25 Abril 2015 | 02h01

Entender como acontece a metástase dos tumores é importante, pois são elas que causam a morte de 90% dos pacientes com câncer. Sabemos que desde o surgimento do tumor inicial suas células vão acumulando mutações. Imagine uma população de células contendo uma mutação. Quando uma dessas células adquire uma segunda mutação, seus descendentes formam uma segunda população, que agora têm duas mutações. Esse processo se repete ao longo do tempo, gerando dezenas de diferentes populações de células cancerosas diferentes entre si, todas convivendo no mesmo tumor, cada uma com um conjunto de mutações. Algumas dessas populações são pouco agressivas, outras crescem rápido, e as populações competem entre si.

Até recentemente, se acreditava que esse processo continuava até surgir uma população de células capaz de sair do tumor inicial e migrar para outras partes do corpo. Essas células, ao achar um órgão propício, se fixariam e começariam a se dividir, formando um novo tumor, uma metástase. Foi esse processo, de colonização de novos tecidos pelas células do tumor, que agora foi estudado em detalhe. O trabalho, que envolveu dezenas de cientistas, é uma verdadeira maratona de sequenciamento de DNA e análise de dados.

O estudo envolveu dez pacientes que morreram de câncer de próstata metastático ao longo de 20 anos. Os primeiros foram recrutados em 1995, os últimos em 2005. Eles tinham entre 46 e 70 anos quando foram diagnosticados e todos foram acompanhados até a morte, que aconteceu entre 2 e 15 anos após o diagnóstico. Além da extração do DNA da biópsia em que foi feito o diagnóstico, o DNA do tumor após a remoção da próstata também foi isolado. Foram usados diversos tipos de tomografia para acompanhar o aparecimento das metástases, sua regressão durante ciclos de quimioterapia e em muitos casos seu reaparecimento. Mas o mais importante é o fato de os pacientes terem concordado em serem autopsiados imediatamente após a morte (em menos de 5 horas), o que permitiu aos cientistas retirar todas as metástases presentes no corpo do paciente no momento da morte e isolar o DNA de cada tumor.

O DNA dos tumores originais e de cada uma das metástases foi sequenciado em média 55 vezes, o que permite aos cientistas identificar as populações de células existentes em cada um dos tumores metastáticos e quais as mutações de cada uma das populações. Ao juntar os dados de cada tumor com as datas de aparecimento do tumor metastático foi possível determinar quais células migraram de qual lugar para qual lugar do corpo ao longo dos anos. Cinquenta e uma metástases foram analisadas.

Os resultados demonstram que grande parte das metástases é iniciada por mais de um clone de célula que chegam ao local simultaneamente. Isso foi observado em pelo menos uma metástase em 5 dos 10 pacientes, o que sugere que é uma característica comum ao menos no câncer de próstata. Mas o mais interessante é que nos pacientes em que isso foi observado mais de uma vez, o mesmo par de clones aparece como fundador de diversas metástases, o que indica que cada clone individualmente não é capaz de colonizar uma nova região do corpo e que os dois precisam "cooperar" para formar uma nova metástase. Além disso, foi possível demonstrar que muitas metástases são formadas a partir de clones que vieram de outras metástases, e não do tumor original.

Foi também possível mapear o aparecimento das mutações que permitiram a certos clones se tornarem resistentes às drogas. Também nesse caso o resultado é inesperado. As mesmas mutações surgem em diversas linhagens clonais independentes, em diferentes metástases.

Esses resultados demonstram que o processo de formação de metástases é muito mais complexo do que se imaginava, e a doença se desenvolve de maneira diferente em cada paciente. Mas se toda essa complicação mostra que a cura do câncer metastático será uma tarefa mais árdua do que se imaginava, essas descobertas vão permitir o desenvolvimento de novas estratégias de combate ao câncer de próstata.

É BIÓLOGO

MAIS INFORMAÇÕES: THE EVOLUTIONARY HISTORY OF LETHAL METASTATIC PROSTATE CANCER. NATURE VOL. 520 PAG. 353 2015

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