Camuflagem olfativa nos recifes da Austrália

Muitos animais escapam dos predadores mimetizando o ambiente em que vivem. São as listras das zebras, que se confundem com os troncos de árvore, e as cores dos camaleões, que mimetizam a superfície onde ele se encontra. Essa estratégia funciona bem se o predador usa a visão para localizar a presa. Mas, se o predador usa o olfato, de nada adianta a zebra se tornar invisível, o leão a descobre pelo cheiro e babau.

Fernando Reinach, O Estado de S.Paulo

20 Dezembro 2014 | 02h03

A novidade é que os cientistas descobriram que certos peixes conseguem se esconder do predador exalando o cheiro do ambiente em que se encontram. Com esse truque eles se tornam "invisíveis" para as narinas do predador. Esse truque é usado por um peixinho de bico amarelo e manchinhas redondas, o Oxymonacanthus logirostris, que vive nos recifes de coral da Austrália.

Esse peixinho se alimenta de dois tipos de coral, um chamado Acropora e outro chamado Pocillopora. Esses recifes também são lar para dois tipos de caranguejos, e cada um se alimenta exclusivamente de um dos tipos de coral: o Tetralia só come Acorpora e o Tapezia só come Pocillopora. Esses dois caranguejos têm um olfato muito sensível, sendo capazes de sentir o cheiro de seu alimento preferido com facilidade. Por esse motivo, eles foram usados pelos cientistas para identificar o cheiro de cada tipo de coral. Quem também vive nos corais e adora comer nosso peixinho é um peixe carnívoro malvado, chamado de Cephalopholis. Esses são os personagens usados pelos cientistas em seus experimentos.

Os cientistas capturaram um grande número de nossos peixinhos e os colocaram em dois aquários. Os peixes do primeiro aquário foram alimentados exclusivamente com o coral Acropora, e os do segundo aquário foram alimentados exclusivamente com o coral Pocillopora. Depois de vários dias, um peixe alimentado com Acropora foi colocado em um tubo perfurado, por onde passava a água, e colocado em um aquário. No mesmo aquário, em um outro tubo, foi colocado um peixe alimentado com Pocillopora. No aquário também foi colocado um caranguejo Tetralia. No dia seguinte, os cientistas observaram que o caranguejo ficava cercando o tubo contendo o peixe que havia sido alimentado de Acropora (a comida preferida do Tetralia). Se nesse mesmo aquário fosse colocado um caranguejo Trapezia, ele era atraído pelo peixe que havia se alimentado de Poccilopora.

Esse resultado indica que os peixinhos exalam o cheiro da comida que ingeriram, e que os caranguejos sentem o cheiro exalado e identificam o peixe que comeu seu coral preferido. Esse fenômeno é o mesmo que ocorre conosco quando comemos muito alho. Nosso suor fica cheirando a alho. Se houvesse um animal que adorasse esse cheiro, ele seria atraído.

Agora vem o experimento mais interessante. Os cientistas colocaram no aquário nosso peixinho, o coral e também o peixe carnívoro, mas em diferentes combinações. No primeiro caso, colocaram o peixinho que tinha comido Acropora e o coral Acropora. O que eles observaram é que, neste caso, o peixe predador não conseguia localizar e atacar o peixinho. O mesmo acontecia quando eles colocavam o peixinho que havia comido Poccilopora e o próprio coral Poccilopora. Agora, quando eles colocavam um peixinho alimentado com um tipo de coral, no aquário com o outro coral, o peixe carnívoro tinha facilidade em identificar e devorar o peixinho.

Esses resultados demonstram que, quando o peixinho se alimenta de um tipo de coral, e continua nadando entre esse mesmo tipo de coral, seu cheiro é semelhante ao do ambiente e isso impede que o predador o identifique. Se ele nadar para um coral onde seu cheiro é diferente do cheiro do ambiente, ele é localizado e devorado. É como se você comesse um monte de alho e fosse se esconder numa plantação de alho, seu predador não seria capaz de te identificar. Mas, se depois de comer alho você entrar numa loja de perfume, seguramente chamará a atenção.

Este é o primeiro exemplo do uso de camuflagem olfativa entre vertebrados. Da mesmo maneira que os camaleões mudam de cor dependendo do ambiente, esses peixes mudam de cheiro dependendo do que comem. Em ambos os casos, os predadores têm dificuldade de identificar a presa, uma vez que ela se torna semelhante ao ambiente em que se encontra. Como o ser humano tem ótima visão e péssimo olfato, é natural que tenhamos descoberto faz séculos o disfarce visual, mas só agora o olfativo.

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MAIS INFORMAÇÕES: YOU ARE WHAT YOU EAT: DIET-INDUCED CHEMICAL CRYPSIS IN A CORAL-FEEDING REEF FISH. PROC. R. SOC. B. VOL. 282 PAG. 1887 2014

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