Ailton Cruz/AE-19/11/2010
Ailton Cruz/AE-19/11/2010

Campeã de mortes, Alagoas tem 'Iraque' e 'Vietnã'

'Aqui dívida de droga é cobrada à bala', diz autônomo; na região metropolitana, traficantes já adotaram até pedágios nas ruas

Ricardo Rodrigues, O Estado de S.Paulo

25 Fevereiro 2011 | 00h00

Alagoas, o Estado com o menor Índice de Desenvolvimento Humano do País, 0,677, tem, hoje, mais problemas para cuidar além da miséria. A violência chegou a uma situação tão crítica que lugarejos passaram a ser tratados como praças de guerra e ganharam nomes como Iraque, Coreia e Vietnã. São bairros da periferia ou povoados da região metropolitana, onde impera a "lei do silêncio" e quem reclama ou dedura os traficantes pode pagar com a própria vida.

 

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Em dez anos, a violência cresceu 2,7 vezes e o Estado lidera no País em mortes de mulheres, moradores de rua e sem-terra. Além disso, o Mapa da Violência 2011 mostra que dez municípios alagoanos fazem parte das cem cidades brasileiras consideradas as mais violentas. Entre os jovens, notam-se sintomas de catástrofe: o número de homicídios cresceu 343% e a taxa por 100 mil habitantes quadruplicou. Entre jovens e negros é ainda pior: alcançou 155,6 por 100 mil - para cada jovem branco assassinado, morrem outros 15 negros. Esse número só é pior na Paraíba, onde morrem quase 20 jovens negros para cada branco.

"Aqui dívida de droga é cobrada à bala. É por isso que dou graças a Deus de não ter filho viciado", diz o autônomo José Claudio da Silva, de 57 anos, pai de nove filhos, o menor deles com 13 anos. Ele mora em uma das 4 mil casas do conjunto Habitacional Nova Esperança, que de tão violento passou a ser conhecido como Iraque, em uma referência ao país do Oriente Médio.

Localizado na zona rural de Marechal Deodoro, primeira capital do Estado e berço do proclamador da República, o conjunto foi construído há menos de dez anos. Em pouco tempo, os moradores viraram reféns de traficantes. Quem não colaborava ou se intrometia nos negócios morria.

Após uma chacina, a polícia começou a investigar a ação dos bandos na região. "Somente com a prisão dos chefões do tráfico e dos principais colaboradores a violência diminuiu, mas o medo continua", afirma o radialista José de Lima, de 44 anos.

Pedágio. O avanço do tráfico faz pessoas pagarem pedágio a traficantes para poder transitar em bairros populares, nos grotões e na Grande Maceió, em Rio Largo, Pilar, Marechal Deodoro, Satuba e Paripueira.

Mas a situação de violência é histórica. Nos anos 50, durante a Guerra das Coreias, parte do bairro do Ouricuri virou "Coreia", pela quantidade de homicídios registrados naquela região, no Centro de Maceió.

O secretário de Defesa Social, coronel Dário César, admite que a situação é grave, mas pode ser revertida. "Por isso, implementamos o projeto de Polícia Comunitária." Já o presidente da Comissão de Direitos Humanos da Ordem dos Advogados do Brasil em Alagoas (OAB/AL), Gilberto Irineu de Medeiros, diz que os crimes praticados contra moradores de ruas, viciados, homossexuais e moradores de rua precisam ser logo solucionados. "A impunidade é quem alimenta o crime no Estado e isso ocorre porque as vítimas são pobres."

DUAS PERGUNTAS PARA...

Julio Jacobo, SOCIÓLOGO, COORDENADOR DO MAPA

1.Os dados do último Mapa da Violência mostram um crescimento desproporcional em todos os tipos de mortes violentas na Região Nordeste. Qual a explicação?

Há quem fale em uma "nordestinização". Eu não diria isso. Eu falo de espalhamento da violência. Há Estados da Região Norte e também da Região Sul em que acontece exatamente o mesmo fenômeno. Estados como o Pará e o Paraná, em que está acontecendo a mesma coisa. É uma desconcentração da violência.

2.O que aconteceu nessa década (1998-2008) para que regiões e cidades antes pouco violentas passassem, em pouco tempo, para os primeiros lugares em assassinatos?

Há um processo de desconcentração econômica, com o aparecimento de polos de crescimento no interior. Eles emergem com força e peso econômico, mas não têm quase a presença do Estado em serviços como a segurança pública. É atrativo para a população, para o investimento, mas a estrutura do aparelho do Estado continua praticamente à míngua. Também, em um determinado momento, capitais e regiões metropolitanas começam a receber investimentos para melhoria do aparelho de repressão e mais eficiência policial. Mas as regiões do interior, antes consideradas calmas, ficam desprotegidas. / LISANDRA PARAGUASSU

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