Camaronês é torturado e jogado em alto-mar

Resgatado por navio chileno, ele veio parar em porto do Paraná; PF ouvirá hoje 19 tripulantes turcos, acusados de racismo e tentativa de homicídio

GHEISA LESSA , JÚLIO CESAR LIMA , ESPECIAL PARA O ESTADO , CURITIBA, O Estado de S.Paulo

27 Julho 2012 | 03h03

A Polícia Federal do Paraná, em conjunto com o Ministério Público Federal, investiga a tripulação de um navio acusada de torturar e lançar ao mar um homem de 28 anos, vindo de Camarões. Segundo a PF, o homem foi resgatado há cerca de um mês, em alto-mar, a mais de 10 quilômetros da costa brasileira, mas diligências das investigações impediam a divulgação do caso, o que só ocorreu agora.

O camaronês afirma ter deixado o país em busca de melhores condições de vida. Ele embarcou clandestinamente em um navio com bandeira de Malta, no Porto de Douala, em Camarões. O homem afirma que não sabia qual destino teria o navio. Após oito dias escondido, já sem conseguir obter comida, o camaronês procurou a tripulação do navio Seref Kuru, de bandeira de Malta. Segundo depoimento à PF, foi quando ele acabou trancado em uma sala da embarcação, onde foi torturado e verbalmente agredido.

Após outros quatro dias trancado, a tripulação o abandonou em alto-mar, a 8 mil milhas náuticas da costa, com uma lanterna e uma pequena quantia em dinheiro (150), sobre um pallet (estrado de madeira usado para movimentação de carga).

Segundo o delegado-chefe da PF em Paranaguá, Gabriel Pucci, cerca de 11 horas depois um navio proveniente do Chile encontrou o camaronês em alto-mar e efetuou o resgate. O navio que salvou o homem entrou, então, em contato com as autoridades brasileiras para pedir autorização de desembarque do clandestino no Porto de Paranaguá.

Foto. Com a chegada do camaronês ao território brasileiro, a Polícia Federal iniciou as investigações. Em depoimento, o homem disse ter colado uma fotografia sob a pia de uma sala de 2 por 3 metros, onde teria sofrido as agressões. Ele apanhava enquanto ouvia dos agressores "que não gostavam de preto, porque todos são animais".

Com um mandado de busca e apreensão, agentes federais localizaram e concluíram a varredura na suposta embarcação na qual ele teria deixado Camarões. Pucci afirma que o imigrante clandestino foi muito específico ao detalhar o cenário onde tinha sofrido as práticas violentas. "A fotografia continuava colada onde ele havia afirmado", diz. "Apesar de a tripulação do navio ter negado a presença do camaronês, ficou claro que ele esteve no navio", afirma o delegado-chefe.

Os 19 tripulantes - todos de origem turca - devem desembarcar hoje e prestar depoimento em Paranaguá. Neste momento, segundo a Polícia Federal, as investigações seguem com o objetivo de identificar os responsáveis pelos crimes averiguados. Segundo o delegado Michael de Assis, da PF de Paranaguá, eles serão acusados de tentativa de homicídio. "Mesmo entregando ao camaronês uma estrutura de madeira, isso não alivia a situação", disse.

Também serão apurados os crimes de tortura e injúria racial. O camaronês está hospedado em um hotel, aos cuidados da empresa responsável pelo navio que o resgatou em alto-mar. A transportadora oferece também segurança, para impedi-lo de fugir. "Ele continuará no País até que o processo termine. Quando o caso for concluído, será repatriado a seus país", diz Pucci.

Sem permissão. Além da Polícia Federal, o Ministério Público Federal também entrou no caso e vai apurar a possível situação de racismo e tortura. Toda a tripulação do navio Seref Kuru está proibida de deixar o Porto de Paranaguá, por meio de um pedido feito pela Polícia Federal, com autorização do Ministério Público Federal.

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