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Camaleão que late não morde

Camaleões são agressivos. Defendem violentamente seu território. Como uma briga direta pode custar a vida, melhor desencorajar o adversário demonstrando agressividade por meio de mudanças bruscas de cor. Agora os cientistas descobriram o significado dos impropérios desta linguagem colorida.

Fernando Reinach, O Estado de S.Paulo

04 de janeiro de 2014 | 02h04

Darwin já sabia que camaleões, cachorros e seres humanos não são tão diferentes. Em vez de partir direto para a briga, preferem primeiro amedrontar os adversários. Os cães latem, avançam, e recuam demonstrando sua agressividade, os humanos xingam o adversário, e até a mãe do adversário, antes de partirem para a agressão física. Tudo isso para intimidar o oponente e evitar o risco do conflito direto. Este mecanismo permite a resolução de disputas sem o uso direto das armas e o derramamento de sangue. Darwin mostrou que estes mecanismos de projeção da agressividade para sons (latidos ou xingamentos), expressões (mostrar os dentes ou as garras) e propaganda (mísseis intercontinentais e tamanho dos chifres) trazem uma vantagem para os indivíduos, e acabam selecionados e incorporados ao sistema de comunicação dos animais.

O problema deste sistema indireto é que muitas vezes o indivíduo que demonstra maior agressividade não é obrigatoriamente o mais forte ou o com mais chances de vencer. Vem daí expressões como "ganhou no grito" e "cão que late não morde". Quanto mais sofisticada a capacidade de comunicar a agressividade, maior as chances de "ganhar no grito". Os seres humanos estão entre os melhores entres os que usam as armas sonoras, mas os camaleões são os campeões entre os que usam cores para comunicar sua agressividade. Eles nos deixam para trás com nossos uniformes coloridos, estandartes vermelhos e cartazes agressivos. Foi por isso que os cientistas resolveram iniciar um estudo detalhado da linguagem visual destes simpáticos répteis.

O Chamaeleo calyptratus é capaz de mudar o padrão de cores de todo seu corpo em poucos segundos. Os cientistas já sabiam que os padrões de cores mudavam rapidamente durante o confronto entre dois machos. Mas o que significavam as mudanças de cor?

Para estudar as mudanças de cor durante os enfrentamentos os cientistas coletaram dez camaleões machos durante a primavera de 2011 e organizaram uma espécie de torneio entre eles. Pares de camaleões eram colocados frente a frente e filmados de diversos ângulos com câmaras de vídeo de alta resolução enquanto se enfrentavam. Isso foi repetido com todos os possíveis pares de machos. Em seguida, os cientistas analisaram cuidadosamente os vídeos obtidos de diversos ângulos nas diferentes fases da disputa. Para cada camaleão foi medida a cor em cada um de 28 pontos distintos do corpo. Além disso, foi analisada a velocidade de mudança de cor em cada um desses pontos e a intensidade da cor e dos padrões de cor. Esses dados foram correlacionados com os padrões de movimentos dos camaleões durante o confronto.

Algumas vezes, os animais chegavam a brigar fisicamente, mas na maioria das vezes a disputa era decidida antes do embate direto. Mas sempre havia um vencedor. A vitória era declarada quando um dos animais desistia do confronto e se retirava. O curioso é que foram observados dois tipos de vitória. Uma em que o vencedor conseguia afastar o adversário sem avançar diretamente em direção a ele, outra em que os adversários investiam um na direção do outro, até que um deles se virava e fugia da luta.

Os cientistas observaram que na primeira fase da luta os adversários se colocavam lateralmente, um em relação ou outro, e mudavam rapidamente as cores de suas listas laterais. Em muitos casos, isso era suficiente para fazer um animal desistir da luta. Caso isso não ocorresse, eles partiam para a violência, frente a frente.

Medindo as mudanças de cor, os cientistas descobriram que a capacidade de mudar rapidamente a cor das listas laterais e a capacidade de mostrar cores mais vivas e contrastantes era determinante para decidir a luta na primeira fase. O macho com esses atributos mais evidentes afastava o outro. Mas a capacidade de vencer uma luta física dependia muito mais da intensidade da cor vermelha do focinho do camaleão. Esses padrões de cores eram tão informativos que somente medindo as mudanças de cores nesses dois locais é possível prever o vencedor da luta.

A diferença da intensidade das listas laterais, se fosse alta, fazia com que o animal ganhasse a luta no grito (ou melhor, na cor). Mas, se a diferença de intensidade da cor não fosse suficientemente alta, eles se enfrentavam, e aí ganhava o que tinha maior capacidade de realmente lutar (o com o nariz mais vermelho). Esses resultados levaram os cientistas a interpretar a intensidade da cor lateral como uma evidência da capacidade mais alta de ameaçar (xingar ou mostrar coragem). Já a intensidade da cor do nariz indica a agressividade real do macho (partir para a violência e ganhar a disputa física).

Esses resultados demonstram que nos camaleões a capacidade de mostrar a agressividade (listas laterais gritantes) muitas vezes é suficiente para ganhar a disputa, mesmo que sua capacidade de vencer a luta seja menor (nariz pouco vermelho). Ou seja, os camaleões também ganhas suas disputas na cor.

Na verdade, não somos tão diferentes dos camaleões. Quantas vezes nos acovardamos frente a adversários que gritam impropérios e apresentam os olhos vermelhos de raiva? Mas, para felicidade dos fracos e dóceis, nossa espécie tem outros mecanismos, muito mais sutis, para conquistar parceiros sexuais.

MAIS INFORMAÇÕES: CHAMELEONS COMMUNICATE WITH COMPLEX COLOUR CHANGES DURING CONTESTS: DIFFERENT BODY REGIONS CONVEY DIFFERENT INFORMATION. BIOL. LETT. VOL. 9 PAG. 892 2013

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