Arquivo Pessoal
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'Calma, pai, meu carro é blindado', dizia estudante

Cheio de planos, Felipe não se importava de trabalhar 12 horas por dia, até em fins de semana e feriados, para conseguir concretizá-los

Vitor Hugo Brandalise e Felipe Frazão, O Estado de S.Paulo

20 de maio de 2011 | 00h00

O estudante Felipe Ramos de Paiva, de 24 anos, trabalhava até 12 horas por dia em uma consultoria financeira na Avenida Brigadeiro Faria Lima. À noite, estudava na USP. Na casa da família em Pirituba, na zona norte, praticamente só dormia: saía às 8 horas, voltava perto da meia-noite. Não poupava nem feriado: no último Dia das Mães, enquanto a família toda - pai Ocimar, mãe Zélia, irmã caçula Amanda e oito tios e tias - preparava um churrasco em casa, Felipe havia saído. Era domingo, fazia sol, mas ele precisava adiantar o serviço.

Trabalhar, nos últimos dois anos, era o "grande prazer" do estudante do 4.º e último ano de Ciências Atuariais na Faculdade de Economia, Administração e Contabilidade (FEA) da USP. Começara como estagiário no início de 2010 e, um ano depois, já se tornara sócio da empresa, a consultoria Capitânia. Tinha 0,1% do capital, algo que "não é muito, mas um começo" - segundo ele próprio descreveu em troca de e-mails com amigos a que o Estado teve acesso.

As dez mensagens, trocadas entre maio de 2010 e fevereiro, demonstram a importância que dava ao serviço. "Agora nas férias até que estou trabalhando pouco, só umas 60 horas por semana", escreveu Felipe, às 16h35 de 16 de fevereiro, dia de trabalho durante recesso da faculdade. "Teve um dia em que saí do escritório e ainda estava claro! Até me senti mal com isso."

Era um rapaz obstinado. Pagava pelos livros e cursos, comprou com dinheiro próprio o Passat azul blindado - "queria se proteger", após ter sofrido dois assaltos, aos quais reagiu. "Ele tinha apego grande por suas coisas. Comprou o carro sozinho, não ia entregar a qualquer um", disse o pai. "Infelizmente."

O esforço no trabalho era parte do plano que Felipe criara, confidenciado a poucos amigos. Ele queria ser piloto, tirar brevê, comprar um hidroavião. A uma amiga, mandou cotação para a compra de um modelo de aeronave, por R$ 50 mil. Em cinco anos, ele planejava realizar o sonho.

Felipe Ramos de Paiva - o mais reservado da turma, sem apelido na faculdade, nem perfil em redes sociais - tinha o espírito livre, pretendia viajar. "Executivo larga mercado financeiro para dar volta ao mundo de barco" era o título de outro e-mail, enviado em 9 de novembro. Na mensagem, ele fazia referência à viagem do vice-presidente de um banco que largou tudo para virar velejador. "Não estou sugerindo nada?", brincou. Há cinco dias, ele tirou passaporte. Queria conhecer França e Espanha.

Nos planos do rapaz, que estudou nos colégios Santa Teresa e Módulo, também estava cursar universidade pública. Investiu um ano em curso pré-vestibular, até entrar para a FEA. Foi a deixa para o pai Ocimar, que trabalhara a vida toda como projetista de redes elétricas apenas com o segundo grau, também fazer sua faculdade. Aos 53 anos, Ocimar está no 4.º ano de Engenharia Elétrica na Uniban. Em dezembro, ele planejava festejar sua formatura com a do filho.

Caseiro. Felipe nasceu em família de classe média baixa em Pirituba. Descrito como "caseiro", "tranquilo", "comprometido", acordava às 7 horas, fazia exercícios e seguia até Pinheiros, na zona oeste, onde fica a Capitânia.

O rapaz gostava de ler e, meses atrás, comprou um livro de massagens orientais. "Fazia massagem na mãe, que ficava tensa, preocupada com os filhos", disse o tio Flávio. Desde 2007, namorava Maiara Marins, de 24 anos, formada em Rádio e TV. Planejavam morar juntos e casar quando ele terminasse o curso.

Conselho. Sentado sozinho em uma cadeira estofada no velório do filho, o pai disse não conseguir tirar da cabeça conselho que deu a Felipe sobre sequestros relâmpagos. Como resposta, ouviu: "Calma, pai, meu carro é blindado". "Mas você não é", respondeu Ocimar. "Não quero pensar, para não me abalar mais."

Em abril, enquanto estudava para prova com a amiga Rebecca Nogueira, do 3.º ano do mesmo curso, ela perguntou se Felipe não achava que trabalhava demais. Em resposta, ele disse que era parte do plano. Mas fez uma ressalva: "Mas já pensou? Seria uma b... se eu morresse agora".

REPERCUSSÃO NO TWITTER

Roberta Gianneschi (@RoGianneschi)

"Foi preciso chegar a um nível absurdo (um aluno ser morto) para começarem a dar ouvidos às reclamações de falta de segurança na USP"

Amanda Gallo (@Mandika_)

"Ontem foi na FEA-USP. Quem garante que hoje não pode acontecer novamente em outro local? Até quando nós, estudantes, teremos de ter medo?"

Julio Barros (@jwaally)

"Há exatos seis anos, o abordado fui eu, na mesma hora e situação. Infelizmente, a sorte (do estudante) não foi a mesma. Paz para a família do aluno da FEA"

Kaonan Micadei (@kaosmicadei)

"A USP é um dos maiores patrimônios do Estado de São Paulo, pena que a população e o poder público não se importem com isso"

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