Calle Florida é o paraíso de batedores de carteira

São pelo menos 20 roubos por dia na mais famosa rua comercial de Buenos Aires

Ariel Palacios, O Estado de S.Paulo

20 Março 2011 | 00h00

Antes um elegante calçadão no centro de Buenos Aires, a famosa Calle Florida transformou-se nos últimos tempos em um inferno para turistas distraídos. Em média, de 20 a 30 pessoas são roubadas diariamente na rua, segundo denúncias feitas à polícia, mas estima-se que sejam apenas uma pequena parte das vítimas.

Além de turistas e trabalhadores dos escritórios do centro portenho, acotovelam-se na rua camelôs, dançarinos de tango, estátuas vivas, mendigos e músicos. Este cenário de aglomeração de pedestres, somado ao aumento da criminalidade no país e à crise das forças de segurança, tornou a Calle Florida o paraíso dos batedores de carteiras, cujas principais vítimas são justamente os turistas distraídos.

"É uma pena, pois uma pessoa que visita a Argentina, quando volta a seu país, terá como uma de suas principais lembranças o roubo que sofreu", lamenta Héctor López Moreno, presidente da Associação de Amigos da Calle Florida.

Comerciantes da rua calculam que os batedores se concentram em 15 grupos, compostos por dois a cinco ladrões cada, que agem ao longo dos 13 quarteirões entre as Avenidas de Mayo e Santa Fé. O trecho mais visado são os cinco quarteirões entre a Calle Sarmiento e a Avenida Córdoba. Além da rua, os batedores de carteira também agem dentro de lojas cheias de clientes.

Vítimas. Parte dos turistas brasileiros que são furtados em Buenos Aires foi vítima dos bandidos na Calle Florida. O Consulado do Brasil não recebe denúncias de roubos, mas realiza os trâmites da chamada "autorização de retorno ao Brasil" (o ARB, de emissão gratuita) para os casos de roubo ou perda de documentos durante a estada no país.

Não existem estatísticas separadas por passaportes roubados e perdidos, mas os números do consulado mostram um aumento nas solicitações do ARB. Em 2009, foram registrados 1.385 pedidos. No ano passado, 2,8 mil. Só em janeiro deste ano, foram 394 solicitações e, em fevereiro, 173. Mesmo assim, o volume de pessoas que perdeu documentos - muitos dos quais roubados - é pequeno se comparado ao fluxo estimado de 1 milhão de turistas brasileiros na Argentina para 2011.

A mato-grossense Susana Neves, que passeava na quinta-feira pelo bairro da Recoleta, disse ao Estado que esta é sua segunda visita à capital argentina. "Desta vez tomei as devidas precauções. Mas, na primeira, no ano passado, furtaram minha câmera de fotos, que estava dentro da minha bolsa. Foi na Florida, quando estava olhando uma vitrine. Fiquei com muita raiva e xinguei os argentinos. Mas depois pensei nas vezes em que fui roubada no Brasil e aí passou. Nesta segunda viagem, estou alerta para aproveitar essa cidade deliciosa", afirmou.

Carlos Fontana, um curitibano que visita Buenos Aires com frequência, também foi vítima de batedores de carteira. "Esbarraram em mim no Caminito (ponto turístico da cidade). Mas pediram desculpas com tanta educação que nem desconfiei. Ao sentar em um bar, notei que haviam surrupiado o passaporte e o dinheiro que tinha no bolso da camisa. Ir à polícia foi perda de tempo. Polícia no Brasil pode ser ruim, mas na Argentina é muito mais. Foi besteira minha sair com o passaporte na rua. Por sorte, tinha o RG no hotel", disse.

Outra modalidade de roubo é o "truque da mostarda", no qual um golpista usa uma bisnaga para jogar um pouco de mostarda nas costas ou no braço da vítima, sem que ela perceba. Um segundo criminoso, seu comparsa, passa ao lado da pessoa e a adverte: "Ei, a senhora está com uma mancha de mostarda nas costas." O ladrão prontifica-se a ajudá-la e, enquanto finge dar a assistência, ele ou o colega rouba a vítima.

Dinheiro falso. Além dos batedores de carteira, os turistas devem ficar atentos às notas falsas de pesos. Especialistas e policiais federais argentinos estimam que o dinheiro falso equivale a 3% do total do circulante argentino - cerca de 296 milhões de pesos (US$ 78 milhões).

Na maior parte das vezes, as cédulas de dinheiro falso são repassadas em táxis, remises (carros de aluguel), bares, restaurantes e lanchonetes. Os argentinos são o alvo cotidiano dos falsificadores. No entanto, em temporadas de grandes contingentes de turistas estrangeiros pouco familiarizados às notas de pesos, os falsários direcionam seus esforços para esse desprevenido público.

Até nos caixas. Do total de cédulas falsas apreendidas pela polícia, 60% são imitações das notas de 100 pesos (cerca de R$ 40). Outros 18% correspondem a imitações de cédulas de 50 pesos (cerca de R$ 20). E o pior: dinheiro falso também é encontrado com relativa frequência nos caixas eletrônicos, já que nos bancos não existe um mecanismo que evite totalmente a entrega de notas falsas.

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