Caixotes de dinheiro

Privilégio é ter caixinhas envidraçadas gourmet e avistar palmeiras no asfalto

Paula Fábrio,

24 de janeiro de 2014 | 23h50

Igreja, shopping, livraria. Agência bancária. No formato quadrado a cidade se empenha.

É o futuro-já, com janelas encravadas no cimento dos prédios. Centenas, numa única braçada de olho. Milhares, na visão periférica. Algumas mais ao alto, com vista para o elevado e o engavetamento, ou para o cemitério, onde se retêm mais caixotes. Estes, uns sobre outros, para não sermos iguais. Nunca. Privilégio é ter caixinhas envidraçadas gourmet e avistar palmeiras no asfalto. Na garagem, um minitanque de guerra.

É verdade. O horizonte subiu ao céu num contorno quadriculado metálico. Também pudera, muito tempo se passou desde 1984 e dos últimos leitores de livros.

No formato quadrado a cidade se empenha e ganha dinheiro. O cartaz colorido e o sorriso plantado já não interessam. Apenas a tela do jogo, o link do link do link. O novo eletrônico intuitivo. Pulso e cartão de crédito. Tudo num chip implantado. Contração e expansão em linhas desordenadas, pontas desencaixadas e lascas soltas. Não obstante, emergem caixotes maiores, câmpus, retângulos, onde o conhecimento se mede pelo número de aplicativos.

Na praça, o quadrilátero é avesso às voltas. Agora no futuro, o rolé é démodé. Já ninguém sai detrás das grades. De nenhum lado. Confinados, a nos suportar. Como carneiros com ferraduras quadradas.

Mas antes de agonizar, janelas se espremem e sobem ao alto como árvores à procura do sol. Enfim, sós e emoldurados. O cadeado seguro. O portão automático. A tela 4D. Sonha-se em ângulo reto. O caixote da morte. O da vida. O achatamento da terra, na luz branca e roxa do sol que se pôs, e outro dia que passou, tão rápido, nas horas extras fingidas - a brincadeira mórbida a ver quem se aguenta mais no escritório. E o escape fugidio, nos parques temáticos, no jardim simulado. Janelas de computador.

A despeito de tudo, a mão redondinha da criança deixa sua marca de tinta no papel. Um deslize. Pois no final, não há ponto. O cerco. Fechado. Em linhas perpendiculares. E você não resiste.

VENCEDORA DO PRÊMIO SÃO PAULO DE LITERATURA COM O ROMANCE DESNORTEIO (PATUÁ, 2012) NA CATEGORIA ESTREANTE +40 ANOS, NASCEU EM SÃO PAULO E FORMOU-SE EM COMUNICAÇÃO. ATUALMENTE, FAZ MESTRADO EM LETRAS NA USP E EM BREVE PUBLICARÁ SEU NOVO LIVRO, PONTO DE FUGA, PREMIADO PELO PROAC, DA SECRETARIA DE ESTADO DA CULTURA DE SÃO PAULO

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