Café Paraventi

De Celestino Paraventi conheci apenas o pôster do Café Paraventi que havia no quadro de avisos das estações ferroviárias da São Paulo Railway, a do trem de Santos a Jundiaí, para as conexões com a Bragantina, a Paulista e a Mojiana, de quando ia para o interior. Embora viciado no aroma do café e no próprio café, nunca provei o de Paraventi. Em casa, se tomava o Café Caboclo. Não havendo esse, era o Café Jardim, de Marino Mencarini, que em certa época trazia figurinhas. A preferência era ditada pelo fato de que minha mãe crescera no meio do cafezal, com os pais e irmãos na carpa ou na colheita, colonos de café de uma fazenda da região de Bragança Paulista.

José de Souza Martins, O Estado de S.Paulo

31 Dezembro 2012 | 02h04

Na casinha branca de pau a pique de meus avós, os netos acordavam com o cantar do galo e o inesquecível aroma do café plantado, cuidado, colhido, secado, torrado e moído no pilão por minha avó. Da semente ao aroma, tinha ela o completo senhorio do café que se tomava em casa, adoçado com açúcar mascavo.

Meu avô materno, imigrante espanhol, no Brasil tornara-se afeito ao café, sempre disponível numa chaleira de ferro, tomado em canequinha de ágata. Já velhinho, ele passava o dia na roça, cuidando das parreiras de uva, que sustentavam a família, com carinho de jardineiro. Tocava nas plantas como se fossem obras de arte e era capaz de perder um tempão admirando os cachos que se formavam a cada ano e que enchiam de um perfume doce sua casa e sua vida. A cada tanto tempo, voltava para casa, sentava em sua cadeira de palha de milho trançada e degustava o café de canequinha para depois fumar demoradamente o cigarro de palha, cujo preparo lhe tomava um tempo enorme.

Muitos se esquecem de que o café é a mais democrática das bebidas brasileiras. Se a cachaça segregou os homens na sociabilidade de botequim, o café criou uma civilizada sociabilidade doméstica e a ela incorporou as mulheres, trazendo o homem para dentro de casa, para o rito do cafezinho. Homens e mulheres podiam agora beber juntos, conversando amenidades. Mesmo na rústica casa de roça caipira.

Celestino Paraventi ficou rico com o café. Era cantor lírico, tenor. Deixou várias gravações. Foi o primeiro cantor a gravar, em 1930, Tardes em Lyndoia, de Zequinha de Abreu e Plínio Martins. Ao morrer, em 1986, tinha mais fama de capitalista excêntrico, porque comunista, do que de cantor. Ajudava financeiramente o Partidão e abrigou em sua casa de Santo Amaro, à beira da Guarapiranga, em 1935, Olga Benário e Luís Carlos Prestes, perseguidos pela polícia política. Por isso, Paraventi acabaria preso. Os anúncios do Café Paraventi alimentavam publicações oposicionistas e culturais, como O Homem do Povo, jornal de Oswald de Andrade e Patrícia Galvão. O Café Paraventi era, em suma, um café de esquerda, o primeiro e último café ideológico do Brasil.

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