Daniel Teixeira/AE
Daniel Teixeira/AE

Cães também serão usados em resgate na água

Grupo de farejadores dos bombeiros faz 15 anos com 11 cachorros treinados para achar vítimas de tragédias - como o pedestre que morreu na Liberdade

Edison Veiga, O Estado de S.Paulo

09 Março 2013 | 16h36

Eles não têm medo. Reviram escombros, enfrentam deslizamentos de terra e, muitas vezes, são os primeiros a encontrar mortos e feridos. Com treinamento constante, os cães farejadores do Corpo de Bombeiros de São Paulo já entraram em operação 23 vezes neste ano - a última foi no dia 28, após a fachada de um antigo bar desabar e matar um pedestre na Avenida Liberdade, no centro.

Os chamados cães de salvamento começaram a ser usados pelos bombeiros paulistas há exatos 15 anos. "Mas eram esforços pontuais, iniciativas de alguns colegas que gostavam de animais e entendiam a importância da criação de um serviço como esse", explica o tenente Robson Mitsuo Guenca, comandante do grupamento do Ipiranga, na zona sul, que abriga os cães.

Esse cenário começou a mudar em 2007, quando uma cratera nas obras da Estação Pinheiros do Metrô deixou famosas as cadelas Dara e Anny. Elas eram as únicas farejadoras dos bombeiros em atividade na época. A dupla encontrou os corpos das sete vítimas sob toneladas de escombros. Hoje, há 11 cães treinados na corporação.

"Atualmente, há uma postura institucional de reconhecimento dessa atividade", compara Guenca. E isso não se resume ao aumento do contingente. "Tudo evoluiu. No começo, a gente treinava os cães com base no que aprendíamos em livros e na internet. Agora, fazemos cursos e somos enviados para outros países para compartilhar experiências", diz o sargento Marcelo Garcia Dias, que atua com os cães-bombeiros desde a criação do serviço, em 1998.

Na política de melhorar as condições de trabalho dos cães-bombeiros, os animais ganharam, há poucos meses, um canil mais espaçoso e bem estruturado. Ali, nas baias, estão os 11 heróis na ativa: Sam, Hanna, Beck, Cacau, Hachi, Milka, Gugol, Leda, Vasty, Nuri e Jade.

Em breve, a corporação pretende aumentar também o escopo de trabalho desse esquadrão canino. "Vamos começar a treiná-los para resgate na água", adianta Guenca. A ideia é sair com os animais em barcos para busca em rios, quando há corpos de vítimas de afogamento.

Outra mudança está no processo de aquisição. Até três anos atrás, os animais eram recebidos em doação. Mas a regra mudou: agora são comprados - e muito bem escolhidos. Cada filhote custa cerca de R$ 2,5 mil. As raças mais adequadas, por causa do tamanho, do temperamento e do formato do focinho, são pastor belga, labrador, pastor alemão e golden retriever.

Mas a maioria não consegue nem passar pelo treinamento, que dura cerca de um ano e meio. Por isso, os cães comprados vêm com garantia. "Já é combinado com os criadores. Se ele não se adaptar à rotina, pode ser trocado em até 18 meses", conta Dias. Dos últimos seis adquiridos, quatro precisaram ser devolvidos.

O treinamento é feito na área aberta da própria sede do grupamento. Um voluntário se esconde e o cão é incentivado a encontrá-lo. "No início, usávamos um produto que simulava odores de suor e sangue, por exemplo. Mas depois aprendemos que dessa maneira o resultado é mais efetivo", comenta Dias. Quando o cão cumpre a missão, precisa ser recompensado. Não com comida (o que poderia atrapalhar uma operação de resgate), mas com uma brincadeira. "Varia de animal para animal. Alguns preferem uma bolinha, outros gostam de um pedaço de pano."

Apesar de o treinamento ser versátil, alguns cães são mais aptos a determinadas tarefas. "Alguns têm mais facilidade para procurar na mata fechada, outros se destacam por boas performances em soterramento", conta Dias. O importante é que o cão seja dócil (não pode querer morder a vítima) e curioso. E não estranhe o tumulto de grandes aglomerações.

Futuro. Outro plano é criar os próprios cães. "Sabemos do peso genético. Bons cães farejadores tendem a produzir proles melhores. Podemos criar uma bela linhagem", vislumbra o comandante.

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