Daniel Teixeira/Estadão - 02/08
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Donos de cachorros denunciam armadilhas com veneno em praças na zona sul de SP

Há suspeitas de uma morte e de outra intoxicação por envenenamento e moradores alertam sobre o 'serial killer' de pets; Prefeitura diz que limpezas foram providenciadas após as denúncias, mas não foi encontrado veneno

Ítalo Lo Re e Marcela Paes, O Estado de S.Paulo

02 de agosto de 2022 | 20h31
Atualizado 05 de agosto de 2022 | 17h51

SÃO PAULO – Donos de cachorros da região de Vila Mariana, Ibirapuera e Aclimação, na zona sul de São Paulo, estão preocupados com relatos sobre envenenamento de pets em cachorródromos da vizinhança. Em um dos vídeos publicados nas redes sociais, um homem mostra imagens de uma porção de ração misturada ao que seria veneno de rato. 

A situação põe em alerta frequentadores, principalmente, das praças Ayrton Senna, nos arredores do Ibirapuera, e Rosa Alves da Silva, entre Vila Mariana e Aclimação – nesta última, grupos já colaram cartazes de aviso. Há suspeitas de ao menos uma morte de cachorro e de outra intoxicação por envenenamento nesses locais, mas não há perícia sobre esses relatos. Procurada, a Prefeitura de São Paulo informa que não foram identificados indícios de veneno até o momento, mas diz ter intensificado as ações de zeladoria.

Moradores ouvidos pelo Estadão relataram que um cachorro teria morrido após ser levado para passear na Praça Ayrton Senna. Segundo eles, um laudo técnico apontou morte por envenenamento por raticida, mas a reportagem não teve acesso ao documento. Os moradores disseram que a dona está abalada e prefere não se manifestar.

“Estamos buscando as imagens de câmeras de segurança da região para ver se conseguimos identificar quem está colocando o veneno”, disse Priscila Tapia, moradora da região que faz parte da Vizinhança Solidária da Vila Mariana.

Na Praça Rosa Alves da Silva, o designer gráfico Nicholas de Andrade, de 30 anos, conta que seu pet, Átila, de 1 ano e 3 meses, começou a sentir sintomas fortes após um passeio de rotina no local no começo da semana passada. “A gente já teve outros perrengues com ele, mas nada se compara ao de agora.”

“Ele começou a ficar muito enjoado, estava muito amuado no começo. Não queria beber água, não queria comer, o que não é o natural”, conta Nicholas. “Vomitou umas três ou quatro vezes. Depois de vomitar, começou a ter diarreias muito fortes, e a diarreia foi piorando a ponto de começar até sangrar. Esse foi o momento em que a gente percebeu que era uma coisa mais séria.”

Diante da situação, o designer se afastou do trabalho e levou o pet às pressas ao veterinário. O laudo dos sintomas de envenenamento ainda não saiu, mas ele diz que a suspeita principal é de envenenamento por raticida, até por conta do que foi observado durante as consultas. “A gente sabe que não era 'chumbinho', porque, se fosse 'chumbinho', ele teria morrido, e a venda do 'chumbinho' é proibida. Mas, no caso desses outros venenos de rato que hoje estão usando, (como, por exemplo) essa semente de girassol, é permitida a venda”, disse. Muitos moradores falam justamente sobre a presença dessa substância nos locais.

Após ser medicado, o cachorro foi melhorando aos poucos e não apresenta quadro de diarreia desde esta segunda-feira, 2. “Voltou a ser o cachorro curiosinho que ele é”, disse. Agora, Nicholas pretende reunir os exames para registrar um boletim de ocorrência sobre o caso.

Relatos de moradores dos arredores do Ibirapuera indicam que as primeiras armadilhas com veneno começaram a ser observadas na Praça Rosa Alves da Silva no último dia 23, misturadas em ração para cachorro e em frutas. Com o sinal de alerta ligado, as buscas por mais armadilhas por parte dos frequentadores do local se intensificaram nos últimos dias, assim como as postagens nas redes sociais.

“Na terça-feira, dia 26, recebi vídeos dos venenos dentro de uma chuteira (abandonada na praça), perto de brinquedos dos cães e relatos de que haviam venenos nas frutas também”, disse a gerente comercial Amanda Cammarota, de 29 anos. Moradora da Mooca, ela trabalha nas proximidades da Praça Rosa Alves da Silva e leva os cachorros Espeto, de 3 anos, e Fina, de 1 ano, ao local nos fins de semana.

Com o surgimento dos primeiros relatos, ela conta que os moradores pensaram que se tratava de 'chumbinho', veneno em formato de pequenos grãos cinzas. Porém, depois descobriu-se que seria um raticida conhecido como grão de rato, feito a partir de sementes de girassol. 

As denúncias começaram a se multiplicar e Amanda conta que decidiu inclusive emitir avisos impressos. Outros frequentadores adotaram medidas semelhantes. “Fui até a praça e coloquei duas placas, uma em cada entrada do campo, alertando que tinha veneno. Encontrei muita gente desinformada lá e frequentando o local com os cães ainda”, disse. Ainda não há indícios de quem teria colocado armadilhas com veneno nas praças.

Em nota, a Prefeitura de São Paulo, por meio da Subprefeitura Vila Mariana, informou que, desde o momento que tomou conhecimento da denúncia feita por moradores da região do Ibirapuera, na última quinta-feira, 28, reforçou as ações de zeladoria, como limpeza, lavagem com mangueira pressurizada e rastelo.

"Até o momento não foram identificados indícios de veneno. Nenhum alimento, ração ou objeto suspeito, que possa colocar em risco a vida dos cães levados ao local pelos seus tutores foi encontrado", informou a pasta. Nesta terça-feira, 2, a pasta informou que, pelo segundo dia, equipes da Subprefeitura da Vila Mariana estiveram no Modelódromo e na Praça Ayrton Senna para atuar na limpeza do cachorródromo e demais áreas do local.

"Os funcionários do Modelódromo estão com a atenção redobrada e pedem a colaboração dos frequentadores do cachorródromo e da Praça Ayrton Senna, caso encontrem algum alimento ou objeto estranho", afirmou. A Prefeitura informou que, diante das denúncias, a administração do Modelódromo também providenciou um cartaz para orientar os tutores de pets que utilizam o cachorródromo do Ibirapuera a não permitirem que seus animais se alimentem de “ração desconhecida” no local.

"A Prefeitura reforça que maus tratos contra animais é crime e deve ser denunciado à Divisão de investigação sobre infrações e maus tratos a animais e contra o meio ambiente do Departamento de Polícia de Proteção à Cidadania – DPPC pelo telefone (11) 3338-0155, ou por meio do site da Delegacia eletrônica de proteção animal: https://www.webdenuncia.org.br/depa", orientou a pasta.

Concessionária que administra o Parque Ibirapuera, a Urbia informou em pronunciamento publicado nas redes sociais não haver relação entre o parque e os casos relatados por moradores. "Afirmamos categoricamente que o cachorródromo dentro do Parque Ibirapuera é um local seguro", afirmou a Urbia, em nota de esclarecimento.

Nesta sexta-feira, 5, a reportagem voltou a questionar a Prefeitura sobre se novos casos de envenenamento na região foram notificados, e se houve a possível identificação de algum suspeito.

Por meio de nota, a Prefeitura voltou a dizer na sexta-feira, 5, que não foram identificados indícios de envenenamento até o momento tanto em praças como em parques municipais, mas informou que, na última quarta-feira, 3, equipes de limpeza voltaram ao Modelódromo, às Praças Ayrton Senna e Rosa Alves da Silva e às ruas do entorno — locais que foram alvo de denúncias — para fazer nova higienização dos espaços citados.

No comunicado, o Município disse também que a Secretaria de Esportes e Lazer pediu aos funcionários para checarem e avisarem sobre a presença de ração envenenada ou possíveis alimentos suspeitos que são espalhados para animais na Praça Ayrton Senna e também no Cachorródromo do Modelódromo. 

A Prefeitura "reitera a importância de tirar fotos, documentar e abrir boletim de ocorrência para que o crime seja devidamente investigado", além de entrar em contato com algum funcionário. 

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