Cachorro louco

Devo a vida ao Instituto Pasteur de São Paulo. Minha tia Sebastiana me dizia: "Ocê nasceu porque vossa mãe foi mordida por um cachorro louco". Minha mãe, ainda solteira, morava na roça, no bairro do Arriá, no Pinhalzinho, quando foi mordida por um cão hidrófobo, aí por 1936. Morto o animal a tiros, teve a cabeça cortada e colocada num saco de estopa. Meu tio Pedro desceu a Serra das Araras a cavalo, levando o embrulho e, em outro cavalo, minha mãe e sua irmã mais velha para que tomassem o trem em Bragança e viajassem para São Paulo. Da Estação da Luz foram para o Instituto Pasteur, na Avenida Paulista. Entregaram a cabeça do cachorro, para confirmar a hidrofobia.

José de Souza Martins, O Estado de S.Paulo

04 de fevereiro de 2013 | 02h04

Repetiam o que se tornara comum desde a manhã de 7 de novembro de 1903, quando o Dr. Ivo Bandi, médico italiano, primeiro diretor do Instituto Pasteur, vacinou as duas primeiras vítimas de cães hidrófobos que, finalmente, podiam ser vacinadas aqui mesmo em São Paulo. Até então, eram enviadas de trem para tratamento no Rio de Janeiro. Quem não pudesse fazer a viagem acabava morrendo depois de atroz agonia. As vacinas foram aplicadas numa clínica na Rua Direita nº 22. A primeira pessoa a recebê-la foi uma menina de 9 anos de idade, Dina Preti, moradora na Rua Sólon, no Bom Retiro. A segunda foi o italiano Saverio Micalli, de 45 anos, procedente de Santa Eudóxia, em São Carlos do Pinhal.

O Instituto nascera numa reunião, no Clube Internacional, no dia 6 de agosto, presidida pelo engenheiro Inácio Wallace da Gama Cochrane, com a presença de vários médicos. Seria uma instituição privada e sua fundação dependeria de donativos. Em três semanas foram angariados mais de 23 contos de réis, uma pequena fortuna. O dinheiro era para comprar o local de sua instalação e importar o material de que necessitaria. O dinheiro continuou chegando de paróquias católicas e de câmaras municipais do interior. Fazendeiros, banqueiros, comerciantes, industriais enviaram contribuições. Trabalhadores e pessoas de condições modestas subscreveram listas e enviaram doações. A Associação das Classes Laboriosas, que ainda existe, enviou uma quantia de dinheiro e prometeu fazer uma contribuição anual para manter o Instituto. No dia 8 de novembro o Instituto Pasteur já estava instalado na Avenida Paulista, no prédio em que, com várias alterações na fachada, funciona até hoje. Em 1918, passaria para o Estado.

Como tivesse que permanecer lá até o término do tratamento, minha mãe conheceu outras pacientes. Dentre elas, minha futura tia Amábile, casada com um primo de meu pai, já quarentão. Foi quem arquitetou um almoço na casa de minha futura tia-avó, em São Caetano, para que meu pai e minha mãe se conhecessem. Em 1937, estavam casados e no ano seguinte eu nasceria. Era a bela trama da vida no Instituto Pasteur.

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