Cabral vê migração do crime; estatísticas contradizem tese

Cenário: Felipe Werneck e Antonio Pita

O Estado de S.Paulo

12 de setembro de 2012 | 03h03

O governador Sérgio Cabral Filho (PMDB) afirmou ontem que a chacina de seis jovens na Baixada Fluminense é "uma reação à diminuição do poder" de quadrilhas e atribuiu os crimes a "traficantes que fugiram após a pacificação" de favelas na capital. No entanto, uma análise dos indicadores oficiais de criminalidade não confirma a hipótese de migração em massa de traficantes de áreas pacificadas para a Baixada Fluminense.

O setor de Inteligência da Secretaria de Segurança avalia que pode haver migração de lideranças, mas que isso ocorre em escala muito pequena, tendo pouco impacto ou apenas efeito temporário sobre manchas criminais. "A visão que as pessoas têm de que o crime está se deslocando não condiz com as informações", afirma o sociólogo Ignácio Cano, que coordena o Laboratório de Análise da Violência da Universidade do Estado do Rio (LAV-UERJ). "As pessoas superestimam a migração. Essa ideia é um pouco exagerada", acrescenta o pesquisador.

Dados do último boletim do LAV mostram uma tendência de queda dos indicadores de mortes violentas intencionais desde 2007, principalmente na capital, mas também na Baixada e na Grande Niterói. "A Baixada era e continua sendo a área mais violenta do Rio, e por isso defendemos que as UPPs (Unidades de Polícia Pacificadora) sejam expandidas para lá, mas não há evidências que permitam afirmar que seja consequência de migração", diz Cano. Segundo ele, o sistema no Rio tem por base o controle territorial, e criminosos que saem de favelas ocupadas vão para outras áreas como "convidados" ou "refugiados", com capacidade de atuação muito mais reduzida do que tinham.

No único estudo feito pela Secretaria de Segurança sobre migração, para verificar se procediam informações de que traficantes da Rocinha e do Vidigal teriam migrado para favelas de Niterói, foram analisadas prisões realizadas em um período de seis meses. Cerca de 600 pessoas foram detidas em Niterói no início do ano. Desse total, apenas 34 eram de fora da cidade e não havia entre eles nenhum chefe do tráfico. Remilton Moura da Silva Junior, por exemplo, é um antigo líder na Favela da Chatuba, ocupada ontem. E a investigação da chacina pela Polícia Civil indica que os criminosos são da região. "Não há indicativos de migração em massa", diz o secretário José Mariano Beltrame.

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