Werther Santana/Estadão
Werther Santana/Estadão

Nevou: cabelo platinado quase branco é a febre dos jovens para o verão

Reportagem passou pelo processo de descolorir os cabelos e conta as formas seguras de aderir à tendência

João Ker, O Estado de S.Paulo

23 de janeiro de 2022 | 05h00

Com alguns mililitros de água oxigenada, pós descolorantes e um samba de fundo, milhares de adolescentes e jovens brasileiros sacaram a câmera do celular nos últimos meses e usaram um filtro que faz “nevar”. O “nevado” que postam é uma nova forma de descolorir os cabelos até que fiquem brancos ou acinzentados, como já sugere o nome. Nas redes sociais, as hashtags desse estilo já somam mais de 100 mil publicações e quase 900 milhões de visualizações entre Instagram, Facebook e TikTok. 

Em São Paulo, cabeças nevadas estão nas ruas e becos da periferia, nos campos de futebol, nas mesas boêmias da Praça Roosevelt e nas calçadas de Santa Cecília. “Antigamente, lá nos anos 1920, já existia o platinado do loiro tradicional, mais simples. O ‘nevou’, na verdade, pegou principalmente em 2021 por essa onda de redes sociais”, explica Josenildo “Nitto” da Silva, de 40 anos, sócio da Paris Escola de Cabeleireiros, em Paraisópolis. 

No número 1.026 da Rua Augusta, o Circus Hair é uma referência em coloração dos fios, indo desde os tons clássicos como loiros, ruivos e azuis até as “cores-fantasia”, que transformam cabeças em verdadeiros arco-íris. “O ‘nevou’ começou com a galera do futebol e do funk, principalmente na periferia do Rio de Janeiro. É geralmente em cabelos raspados, bem curtos, e passando o descolorante para deixar bem branco”, explica o diretor criativo do espaço, Rodrigo Lima.

Apesar de dizer que “neva” o ano inteiro no Circus Hair, ele confessa que só no último ano gastou cerca de 3 kg de pó descolorante e outros 300 potes de água oxigenada por mês entre as duas unidades do salão (a outra fica na Rua Pamplona, 1.115). “Chegou uma época que a gente falou até que não aguentava mais, porque eram três ou quatro cabelos descoloridos por dia”, conta Lima. 

Passo a passo

 Uma boa parte dos jovens que têm “nevado” nas redes sociais o fazem de maneira amadora, em casa e com a ajuda de amigos e produtos nem sempre adequados ou suficientes para o processo. “Imagina que o cabelo é um cano. Dentro dele tem pigmento, queratina, ceramida e uma série de componentes. Descolorir o cabelo é tirar o pigmento. Quanto mais branco, mais você tirou”, diz Lima.

Ele explica que usar a quantidade errada do produto, por tempo acima do recomendável ou com produtos de baixa qualidade pode machucar o couro cabeludo, causar danos à raiz, feridas e descamação na cabeça ou até fazer o cabelo cair. Para este repórter, que não usava química capilar há mais de dez anos e estava com os fios na altura do ombro, foi necessário evitar o xampu por mais de 36 horas e adotar um corte mais curto antes de começar o processo. 

Depois de cortado, o cabelo recebeu a primeira aplicação de pó descolorante com oxidante volume 20 e ficou “de molho” por cerca de 50 minutos. Após o primeiro enxágue, a mistura foi novamente aplicada, dessa vez por mais 20 minutos. Com a maior parte dos fios já branca, foi a vez de lavar com xampu e condicionador matizantes.

A essa altura, o couro cabeludo já estava irritado e ardia em um nível suportável. Para finalizar, Rodrigo aplicou um produto para selar os fios e reforçar os nutrientes perdidos ao longo do processo. Depois de “nevado”, ele explica que o cabelo demanda cuidados específicos para manter a força e a cor. Além de continuar a lavar os fios com produtos matizantes, é aconselhável evitar piscinas com cloro (que podem dar um tom esverdeado ao cinza), praia, exposição excessiva ao sol e até tomar banho em chuveiros com encanamento de cobre. Se for tomar sol, uma saída é usar cremes com proteção térmica capilar ou boné.

Comunidade

Há cerca de um ano, a Paris Escola de Cabeleireiros começou a oferecer cursos de corte, tintura, barbearia, design de sobrancelhas e manicure a preços módicos, que atraem principalmente os moradores de Paraisópolis e bairros adjacentes. A iniciativa nasceu do encontro de Nitto, dono do espaço no número 345 da Rua Ricardo Avenarius, com Roberto Pereira, que há mais de 15 anos dava aulas em locais considerados mais “nobres” da capital paulista.

“Percebemos que havia uma demanda grande de gente querendo aprender e outras pessoas precisando cortar o cabelo, mas sem condições. Por isso decidimos não cobrar nada dos modelos”, conta Nitto. 

O curso dura seis meses, custa R$ 400 e já formou pelo menos 25 alunos desde que abriu a primeira turma. Não há idade mínima ou máxima para se inscrever e os horários também são flexíveis para atender quem estuda ou trabalha em outro período. Além da prática, Nitto e Roberto também passam adiante o conhecimento de gestão e administração.

“Eu tinha um preconceito bobo com essas profissões de salão, achava que não era coisa de homem”, lembra Francinaldo, de 32 anos, aluno do curso. Ele planeja abrir o próprio salão quando voltar para Campina Grande, na Paraíba. 

No Paris, alunos, clientes e modelos são adeptos do “nevou” desde que o estilo começou a explodir na internet. Juan Pablo, de 15 anos, termina neste mês o curso. Filho de barbeiro, ele diz que cresceu admirando o trabalho do pai. Em dezembro, o adolescente “nevou”, mas menos de um mês depois já tinha tingido os fios novamente de preto. “Sonho muito em um dia ter meu próprio salão.” 

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