WERTHER SANTANA/ESTADÃO
WERTHER SANTANA/ESTADÃO

Buscas por desaparecidos continuam na Baixada Santista pelo 4º dia; número de mortos chega a 32

Corpo de Bombeiros segue buscas após temporal na madrugada de terça. De acordo com a Defesa Civil, 46 pessoas ainda não foram localizadas

Sandy Oliveira, Paloma Cotes e Lucas Melo, especial para, O Estado de S.Paulo

06 de março de 2020 | 07h30
Atualizado 08 de março de 2020 | 19h17

SÃO PAULO - Pelo quarto dia, os bombeiros trabalham nas buscas por desaparecidos da chuva que deixou um rastro de destruição em Santos, São Vicente e no Guarujá. Quarenta e seis pessoas continuam desaparecidas. Trinta e duas morreram. A informação foi atualizada no começo da tarde pela Defesa Civil.

A cidade mais atingida foi o Guarujá, que concentra o maior número de mortes, são 26. Outras 41 pessoas estão desaparecidas. Na cidade, sete morros foram atingidos, sendo dois com maior gravidade: o da Barreira do João Guarda e o da Bela Vista, conhecido como Macaco Molhado. 

Em Santos, há quatro mortos e quatro desaparecidos. São Vicente registrou duas mortes e tem um desaparecido.  O número atual de desabrigados é de 249 no Guarujá e 185 em Santos. 

Após quatro dias de buscas, familiares e amigos de desaparecidos começam a perder a esperança em achar sobreviventes. “Daqui do morro, a gente não sai enquanto não achar o corpo do meu sobrinho. Não tenho mais esperança de encontrá-lo vivo. É um sofrimento atrás do outro, mas queremos o corpo, não importa como esteja”, afirmou a diarista Rose Araújo, de 49 anos, moradora do Morro da Barreira do João Guarda.

Já os amigos Rafael Soares, de 22 anos, e Jefferson Nogueira, ambos de 26 anos, foram os primeiros a chegar nos escombros após o deslizamento que atingiu os barracos do Morro da Barreira. Em meio ao escuro e à lama, eles conseguiram ajudar algumas pessoas a sair com vida do local. “Todos que estão lá soterrados a gente conhece. Já estamos no quarto dia, então não temos mais esperança de que alguém seja encontrado vivo. A nossa maior alegria no meio disso tudo foi ter resgatado um bebê de três meses que estava em um buraco”, disse Soares. 

Quem também aguarda por respostas é a faxineira Paloma Araújo, de 23 anos. Ela aguarda por informações sobre o primo, ainda desaparecido. "Depois de tudo que a gente já viu, não tenho mais esperança de que ele seja encontrado vivo, mas, pelo menos, queremos o corpo para darmos um enterro digno. Meu pai não dorme, está lá procurando por ele desde o primeiro dia”.

Morro do Macaco Molhado

O morro do Macaco Molhado é outro local do Guarujá atingido pelos deslizamentos. Apesar de ter perdido tudo que tinha, o morador do local, o ajudante geral Bruno Xavier, de 29 anos, mantém as esperanças em encontrar seus amigos com vida. “Minha casa foi destruída pela lama. Na hora, eu estava bem perto, ouvi um barulho de árvore quebrando e, quando fui ver, meu barraco já tinha desabado. A fé e a esperança nunca vão acabar, mas é difícil”, reconfortou-se.

O Corpo de Bombeiros começou a utilizar máquinas para ajudar na retirada dos escombros, na tentativa de encontrar vítimas. Com sol nos últimos dois dias, o trabalho ficou mais fácil, já que a lama está mais seca e o terreno fica mais propício a aguentar o peso do maquinário. Atualmente, segundo informações do Gabinete de Crise montado pela Prefeitura de Guarujá, 177 bombeiros trabalham na parte operacional nos locais atingidos pelos deslizamentos na Baixada Santista. Outros 20 agentes dão apoio. 

Reforço Solidário

Na quinta-feira, 5, chegou ao bairro da Vila Edna, onde fica localizado o Morro do Macaco Molhado, a Unidade Móvel da Agência Adventista de Desenvolvimento e Recursos Assistenciais (ADRA Brasil). A carreta, que também foi instalada em Brumadinho após a tragédia do rompimento da barragem. Ela será usada para atender às principais necessidades da população, como preparo de alimentação, lavagem de roupas e também haverá no  local apoio psicológico e jurídico.

 “Fazemos um pré-cadastro de cada família. Quem deixou o nome num dia, traz as roupas para lavagem e secagem no dia seguinte. Tudo é feito dentro da unidade móvel, inclusive os alimentos que vão nas marmitas que servimos aos voluntários e bombeiros”, explicou a coordenadora da Unidade Móvel, Cristiane Maximiano.

 Os voluntários, que são ligados à Igreja Adventista do Sétimo Dia, trabalham diuturnamente para servir, em média, 350 marmitas por dia aos voluntários e bombeiros que trabalham no resgate das vítimas. Além disso, a carreta comporta máquinas de lavar e secadoras, que têm a capacidade de lavar e secar 50kg de roupas por hora.

 A jovem Thamyres Souza, de 21 anos, teve sua casa invadida pela água, aproveitou a unidade móvel para deixar a roupa de seus familiares. “Trouxe essas roupas que estão cheias de lama porque não consigo lavar lá em casa. Acho uma ótima ideia porque ajuda bastante, nunca vi isso”, afirmou.

A carreta deve ficar em Guarujá para auxiliar no atendimento aos desabrigados, voluntários e bombeiros até a próxima quarta-feira, 11.

Os municípios afetados já receberam 30,5 toneladas de materiais de ajuda humanitária, incluindo colchões, cobertores, cestas básicas, água sanitária e água potável. O estoque ficará armazenado no depósito do Fundo Social de Santos e será distribuído mediante solicitação das defesas civis locais.

O Coordenador Estadual de Proteção e Defesa Civil, Coronel PM Walter Nyakas Junior, permanece na região e em reuniões com o Gabinete de Crise.

A sexta-feira, 6, começou com sol na Baixada Santista. No entanto, com os ventos úmidos que continuam soprando do oceano em direção à costa, há previsão de chuva fraca nos períodos da tarde e da noite, porém sem risco de temporais.  Como o solo já está encharcado pelo volume de água dos dias anteriores, o risco de novos transtornos e deslizamentos continua elevado.

Apenas no verão deste ano,  o total de mortes por chuvas no Sudeste – São Paulo, Rio, Minas e Espírito Santo – já chegou a pelo menos 143 – 70% a mais do que no verão passado, quando houve 82 vítimas. Dados da Defesa Civil compilados pelo Estado também apontam que a região já conta com mais de 87 mil pessoas desabrigadas ou desalojadas.  

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