WERTHER SANTANA/ESTADÃO
Bombeiros fazem buscas no Morro do Macaco Molhado, no Guarujá WERTHER SANTANA/ESTADÃO

Buscas por desaparecidos continuam na Baixada Santista; número de mortos chega a 25

Corpo de Bombeiros segue buscas por 24 desaparecidos após temporal na madrugada de terça; Guarujá foi a cidade mais atingida

João Ker, Paloma Cotes e Priscila Mengue, O Estado de S.Paulo

04 de março de 2020 | 07h23
Atualizado 05 de março de 2020 | 16h13

SÃO PAULO E GUARUJÁ - Subiu para 25 o número de mortos das chuvas fortes que atingiram a Baixada Santista. Os bombeiros trabalham nas buscas por 24 desaparecidos em  Santos, São Vicente e no Guarujá. O balanço foi divulgado na noite desta quarta-feira, 4, pela Defesa Civil.

A cidade mais atingida foi o Guarujá, que concentra o maior número de mortes, são 20. Outras 19 pessoas estão desaparecidas. Na cidade, sete morros foram atingidos, sendo dois com maior gravidade: o da Barreira do João Guarda e o da Bela Vista, conhecido como Macaco Molhado. 

Em Santos, há três mortos e cinco desaparecidos. São Vicente registrou duas morte e tem um desaparecido. Ao todo, 373 pessoas estão desabrigadas: 151 no Guarujá, 3 em São Vicente, 150 em Santos e 102 em Peruíbe. 

Os municípios afetados já receberam 19,5 toneladas de materiais de ajuda humanitária, incluindo colchões, cobertores, cestas básicas, água sanitária e água potável. O estoque ficará armazenado no depósito do Fundo Social de Santos e será distribuído mediante solicitação das defesas civis locais.

O Coordenador Estadual de Proteção e Defesa Civil, Coronel PM Walter Nyakas Junior, permanece na região e em reuniões com o Gabinete de Crise. A previsão para esta quarta-feira, 4, é de chuva moderada a fraca em pontos isolados da Baixada Santista, podendo haver pancadas com momentos mais persistentes. Como o solo já está encharcado pelo volume de água dos dias anteriores, o risco de novos transtornos e deslizamentos continua elevado.

Os corpos de 20 vítimas já foram liberados pelo IML para as famílias. Entre essas vítimas, há três crianças e um bebê. As vítimas são: 

  1. Alan Gama dos Santos (19 anos)
  2. Aliffer Adailton Granero da Silva (6 anos)
  3. Allana Granero de Oliveira (3 anos)
  4. Arthur Rafael de Lima (10 meses)
  5. Edvaldo José Deolindo (43 anos)
  6. Elane Emanuela de Souza Rodrigues (42 anos)
  7. Elisandra de Souza Santana Cândido (28 anos)
  8. Esther Gabrielly Sousa da Silva (11 anos)
  9. Genival Batista dos Santos (48 anos)
  10. Gilmar dos Santos Reis (37 anos)
  11. Jhenifer Maria de Souza Nunes (25 anos)
  12. Jhennyfer Gleice Rodrigues Oliveira dos Santos (19 anos)
  13. Karina Aparecida Pereira da Silva (26 anos)
  14. Kátia de Oliveira Paulo (37 anos)
  15. Laudemir Cilas Tiburcio (60 anos)
  16. Milton Joaquim de Santana Filho (61 anos)
  17. Rogerio de Moraes Santos (43 anos)
  18. Samuel Alves dos Santos (32 anos)
  19. Tathiana Lopes de Lima Gomes (25 anos)
  20. Yasmin Dantas Farias (18 anos)

Apenas no verão deste ano,  o total de mortes por chuvas no Sudeste – São Paulo, Rio, Minas e Espírito Santo – já chegou a pelo menos 143 – 70% a mais do que no verão passado, quando houve 82 vítimas. Dados da Defesa Civil compilados pelo Estado também apontam que a região já conta com mais de 87 mil pessoas desabrigadas ou desalojadas.  

Em nota, o governo do Estado de São Paulo informou que publicou no Diário Oficial a homologação dos decretos municipais de situação de anormalidade do Guarujá (estado de calamidade pública), Santos e São Vicente (situação de emergência). Agora, eles seguem para a Defesa Civil Nacional para o devido reconhecimento federal.

Em 72 horras, chuva no Guarujá chega a 405 milímetros

Dados do Núcleo de Gerenciamento de Emergência da Defesa Civil do Estado indicam que, até as 4h da manhã de terça, 3, o acumulado das últimas 12 horas de chuvas no Guarujá foi de 282 mm, em Santos de 218 mm, em Praia Grande 170 mm, São Vicente 169 mm, Mongaguá 160 mm, Cubatão 132 mm e tanto Itanhaém como Bertioga o acumulado foi de 110 mm.

O governo informou ainda que nas últimas 24 horas, a contar das 6h desta quarta, foram registrados mais 56mm no Guarujá (acumulados de 405 mm em 72 horas), 47 mm em São Vicente (267 mm em 72 horas) e 42 mm em Santos (359 mm em 72 horas).

A previsão para esta quarta é de chuva fraca, mas persistente, alternando com períodos de céu nublado, apontou a Defesa Civil. "O volume previsto não deve ser significativo, inferior aos 10 mm. No entanto, continua na Baixada o alerta de risco para novos deslizamentos em virtude dos altos acumulados (72h) e do solo continuar encharcado."

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'Morreu como herói', diz viúva de bombeiro no Guarujá; nº de vítimas das chuvas chega a 25

Cabo Moraes morreu com colega durante tentativa de resgate em morro no Guarujá; mulher e bebê morreram no mesmo local. Vinte e seis pessoas estão desaparecidas

Lucas Melo, Especial para o Estado

04 de março de 2020 | 14h10
Atualizado 05 de março de 2020 | 11h01

GUARUJÁ - "Ele morreu como um herói, fazendo o que gosta. Isso que me conforta", disse Ana Cristina Moraes, viúva de Rogério de Moraes Santos, de 43 anos, um dos dois bombeiros que morreram enquanto tentavam salvar uma mulher e um bebê no Guarujá, cidade mais atingida pelas chuvas na Baixada Santista esta semana. A dupla participava do resgate quando houve novo deslizamento. O temporal já deixou pelo menos 25 mortos e 24 pessoas seguem desaparecidas.

"Só tenho a agradecer por ter compartilhado esses 23 anos com ele", acrescentou a dona de casa. O velório de Santos foi feito na tarde desta quarta-feira, 4, no Cemitério Municipal da Saudade.  O corpo chegou ao local por volta das 12 horas em um caminhão do Corpo de Bombeiros. A viúva e os três filhos do casal - duas jovens, de 21 e 19 anos, e um adolescente de 16 - também estavam no veículo. Na sala ao lado, ocorreu o velório da mãe e da criança que morreram soterrados no Morro do Macaco Molhado.

Uma Corporação em luto, a Família Corpo de Bombeiros de São Paulo sente o pesar dessa triste fatalidade.

Imagens do cortejo de nosso irmão de farda Cb PM Rogerio de Moraes Santos. Que o coração de cada familiar seja confortado.#CorpodeBombeirosdaPMESP #Cadasegundoconta pic.twitter.com/NTJIumuJLm

Aos poucos, bombeiros de diversos batalhões chegaram para uma última homenagem a Moraes. Alguns mais próximos e que trabalhavam com ele estavam muito emocionados. Um deles foi o sargento Francisco dos Santos, que se formou com Moraes e trabalhou com ele ao longo dos últimos 20 anos. "Era um cara íntegro, honesto e grande parceiro. Um pai de família, um grande confidente meu. É difícil falar algumas palavras, mas Deus levou nosso amigo para junto dele. O Moraes era o que define ser bombeiro", disse.

Companheiro de batalhão de Moraes, o cabo Amorim também falou emocionado sobre o parceiro. "Trabalhávamos juntos em Vicente de Carvalho. Era um excelente amigo, um cara sério, excelente profissional", ressaltou o colega. Moraes serviu no Exército antes de ingressar como bombeiro na Polícia Militar paulista, em 2000 e, segundo sua Ana Cristina, esse havia sido o grande sonho do marido. “Ele sempre quis ser bombeiro, sempre me dizia o quanto gostava da profissão. Acho que escolheu esse emprego para ajudar as pessoas”.

Lotado no 6º Grupamento do Corpo de Bombeiros, no distrito de Vicente de Carvalho, em Guarujá, durante quase todos os 20 anos de profissão, Moraes acumulou amigos e tinha um jeito diferente dos demais.“Aqui no batalhão, era tranquilo, mas tinha fama de turrão. Enquanto todo mundo estava na zoeira, ficava na dele. Eu o conhecia há mais de 15 anos e só tenho elogios para ele e sua família”, disse emocionado o sargento Amorim, companheiro de batalhão de Moraes.

Neste verão, as fortes chuvas na Região Sudeste já deixaram 143 mortos nos quatro Estados - São Paulo, Rio de Janeiro, Minas Gerais e Espírito Santo. O número é mais de 70% maior do que o registrado na estação chuvosa anterior, quando houve 82 vítimas. A combinação de efeitos de longo prazo das mudanças climáticas, temperaturas mais baixas nos oceanos e falhas urbanísticas nas cidades explicam o aumento na quantidade de tragédias por causa de temporais, segundo especialistas ouvidos pelo Estado.

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