Busca por qualidade de vida é uma das razões do fenômeno

Análise: João Sette Whitaker Ferreira

PROFESSOR DE ARQUITETURA, URBANISMO DA USP, DO MACKENZIE, O Estado de S.Paulo

27 de fevereiro de 2013 | 02h02

O movimento pendular é comum em outras grandes cidades do mundo, como Paris e Londres. Vejo três fatores importantes nesse processo. Em primeiro lugar, para o avanço econômico da sociedade capitalista, uma série de elementos facilitou ou favoreceu o estabelecimento das pessoas em um raio maior do que antes. Hoje, você tem a internet, trabalhos que podem ser feitos de casa. Hoje é mais factível morar em uma cidade e trabalhar em outra. Muita gente foge em busca de uma condição de vida diferenciada.

Cidades como Barueri, Vinhedo e Jundiaí transformaram sua modalidade mais comum de ocupação de território em condomínios fechados. Praticamente não existe mais cidade, mas uma soma de condomínios, todos com seus muros fechados. Às vezes, os pais vão fazer o esforço de andar 60, 70 quilômetros de carro ou fretado, em nome de viver em uma casa maior, com jardim, de deixar os filhos em uma boa escola. E isso não acontece só aqui.

Mas por que isso é tão identificado com a categoria de renda alta? Na região metropolitana de Paris ou de Londres há uma rede de transporte público fenomenal. Na Europa ou nos Estados Unidos, esse movimento tende a ser mais democrático porque existe rede de transporte que permite isso. No Brasil, não. Logo, essa dinâmica fica mais focada em uma população que pode pagar o transporte particular, como o fretado, ou ter um carro. E é essa população que tende a entrar mais nessa dinâmica de movimentação pendular.

Terceiro fator: com o aquecimento econômico, tivemos crescimento de um setor do mercado imobiliário para famílias que ganham de 5 a 10 salários mínimos. Esse segmento é atendido pela oferta de moradia por um preço não muito alto. A bolha imobiliária na capital deixa os preços tão altos que faz com que essas empresas façam lançamentos cada vez mais longe para pagar menos pelo terreno. E aí não é para quem tenha carro. Esses empreendimentos estão ao longo das linhas de trem. Em direção a Mogi, Suzano ou Itatiba há muitos lançamentos para a classe média baixa.

Juntando esses três fatores, chega-se à explicação dos resultados da pesquisa. Ela não chega a alterar o papel centralizador de São Paulo, mas permite pensar em uma conurbação cada vez mais dinâmica entre Campinas, São Paulo, São José dos Campos, Santos e Sorocaba.

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