Burocracia atrapalha ajuda no Nordeste

Desabrigados reclamam de exigência de cadastro para receber alimentos e roupas

Ricardo Rodrigues, O Estado de S.Paulo

01 de julho de 2010 | 00h00

Distribuição de mantimentos em Branquinha, cidade destruída pelas enchentes em Alagoas

Desabrigados das enchentes em vários municípios alagoanos estão reclamando da burocracia das prefeituras e da Defesa Civil na distribuição dos alimentos. Em Branquinha, a 70 km de Maceió, um grupo de mulheres esperava ontem debaixo do sol forte por uma cesta básica para alimentar os filhos. Os mais exaltados ameaçam saquear supermercados e depósitos de alimentos caso a distribuição não melhore.

 

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"Só querem entregar cesta básica para quem foi cadastrado. Como não fomos, estamos sem ter o que comer", afirmou Cícera Maria da Silva, de 40 anos. "A gente não teve a casa derrubada, mas o mercadinho onde a gente comprava fiado, no Centro de Branquinha, foi completamente destruído e não temos mais onde comprar, sem dinheiro. Por isso estamos esperando uma feira, há mais de dez dias, e até agora, nada", afirmou Elenilza Galdino, de 19 anos, mãe de uma menina de 1 ano.

Funcionárias da Secretaria Municipal de Assistência Social de Branquinha admitiram que só quem tem cadastro pode receber as cestas básicas. "Essas pessoas que não tiveram a casa derrubada não estão nem desabrigadas nem desalojadas. Vão ter de esperar. Elas vão receber ajuda, só não sei se será hoje ou amanhã", disse uma assistente social da prefeitura.

A presidente da Cruz Vermelha de Alagoas, Maria Helena Russo, disse que também teve dificuldade para entregar os alimentos aos desabrigados, porque os mantimentos precisavam passar primeiro pelas prefeituras. "Nós estamos com uma carreta cheia de mantimentos vindos do Ceará e onde a gente chega é uma dificuldade tremenda de encontrar as pessoas para descarregar as doações."

Já os soldados do Exército, que tomam conta dos mantimentos, disseram que não cabe a eles escolher quem deve ou não receber os alimentos. "Só estamos entregando alimentos para quem foi cadastrado, porque esse é a ordem da prefeitura e da Defesa Civil", disse um militar.

Tumultuo em Jacuípe. Em Jacuípe, a 122 km da capital, desabrigados revoltados com a burocracia imposta pela prefeitura tumultuaram a entrega de alimentos feita pelo Exército. Por isso, segundo a assessoria da Polícia Militar, oito homens da Força Nacional devem embarcar para o município. "Assim que o helicóptero chega, as pessoas avançam e uma confusão enorme acontece. Com isso, os sacos são rasgados e, para evitar o desperdício dos alimentos, bem como grandes transtornos, uma equipe da Força Nacional já se deslocou para Jacuípe", informou o major Oliveira, da 5.ª seção da Polícia Militar.

Travessia. Pela manhã, bombeiros de São Paulo continuavam fazendo a travessia das pessoas que moram do outro lado do rio e estavam ilhadas na zona rural de Branquinha, desde que a enchente derrubou a principal ponte da cidade. Os bombeiros disseram que a travessia é demorada porque o bote inflável é pequeno e há poucos coletes salva-vidas.

Na parte central, onde fica o mercado, quase todas as casas e lojas foram destruídas pelas enchentes. As duas escolas municipais também foram parcialmente destruídas. Na praça central, logo após a igreja, só a imagem de Padre Cícero resistiu à fúria da correnteza. "Apenas a mão esquerda e o cajado da mão direta da imagem do Padre Cícero foram levados pelas águas", mostrou o aposentado Luiz Cícero Alves dos Santos, de 68 anos.

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