Sergio Neves/AE
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Buén, Djoungoth, Bom Retiro

Judeus, bolivianos, coreanos e uma pernambucana arretada no bairro que parece outro país

Fernanda Brambilla, do Jornal da Tarde,

22 Janeiro 2010 | 00h01

É um fuzuê de gente falando uma língua enrolada que acorda Dona Maria todos os dias, bem cedinho. Sem entender palavra, a pernambucana de 62 anos que não gosta de falar o sobrenome a jornalistas sabe que o pelotão de bolivianos que habita o andar de baixo ao seu já está com as máquinas de costura a todo vapor. Maria, ainda sonolenta, vai à sacada do predinho onde mora, que liga a Rua Silva Pinto à Rua dos Italianos, e espia a dança das sacolas pelas ruas do Bom Retiro. Afinal, é sábado.

 

Maria vende chapéus. Ao descer as escadas do velho edifício que tem jeito de pensão, passa pelos bolivianos tecelões um tanto aflita. Ela não fala espanhol, eles não falam português. Sua saída é dar bom dia com um leve abaixar de cabeça, ritual que sempre funciona. Mas aí bate em Dona Maria a saudade dos antigos patrões, judeus que dominavam o Bom Retiro assim que ela chegou do interior do Recife para fazer o que quer que não a deixasse passar fome. Quando a maioria dos judeus se foi do bairro, por morte ou pelo destino, Maria perdeu o emprego e o rumo. Em vez de passar o chapéu, pegou um monte deles e foi ganhar a vida como vendedora ambulante naquele retiro de São Paulo que mais parecia outro país.

 

Maria vive hoje assim, entre chapéus, bolivianos, coreanos, gregos, judeus, pernambucanos, cearenses e com uma misteriosa aliança de casamento na mão esquerda. "Nunca fui casada", afirma. Em poucos segundos de um sábado, ela cruza pelas escadas com o vizinho boliviano Castro. Castro brinca com sua pequena filha Marinês. Marinês admira pela sacada os olhos puxados e as unhas azuis da coreana Noh Jin Ahi. E Noh Jin é só risos. Suas palavras são ainda mais incompreensíveis a Dona Maria, mas sua simpatia é cativante.

 

Na pirâmide social do Bom Retiro, os coreanos estão acima dos bolivianos, assim como os judeus estavam acima dos nordestinos há duas décadas. Há um mês por aquelas bandas, Noh veio atraída pela prosperidade dos tios, que comemoram a abertura da segunda loja no bairro. Sem passagem de volta, ela procura namorado. "Brasileiro, né?". Com graça, posa para fotos desta matéria à frente do poste que sustenta as placas das ruas que a veem crescer: Silva Pinto com Italianos.

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