Brasileiro põe tradição antes do prazer

Foi o que mostrou pesquisa do Programa das Nações Unidas para Desenvolvimento sobre os valores mais importantes para quem vive no País

Lígia Formenti / BRASÍLIA, O Estado de S.Paulo

25 de maio de 2010 | 00h00

Pesquisa inédita feita pelo Programa das Nações Unidas para Desenvolvimento (Pnud) mostra que o brasileiro busca antes a tradição ao prazer. E quando se pergunta o que o angustia, 90,1% têm a percepção de que a violência vem crescendo no País. Além do porcentual bastante expressivo, o que chama a atenção é que, para 23% dos entrevistados, não é a violência praticada pelos bandidos que mais incomoda, mas a vivenciada em casa.

O trabalho, feito em parceria com o Instituto Paulo Montenegro/Ibope e Universidade Mackenzie, com 4.017 entrevistados, procurou definir quais são os valores mais importantes para o brasileiro. Em primeiro lugar, vem o bem-estar do próximo e, em segundo, o bem-estar da humanidade e da natureza. Resultados que, de acordo com o economista sênior do Pnud, Flávio Comim, são frequentemente encontrados em vários países. Na terceira colocação, veio a surpresa: a importância que os brasileiros dão à estabilidade social. "É um elemento novo, diferente do que é constatado em trabalhos semelhantes de outros locais."

Hiperinflação. Para o economista, a relevância dada pelo brasileiro à estabilidade pode ter duas explicações. "Ela pode ser reflexo da memória ainda presente do período de hiperinflação vivido no País", diz. Outra possibilidade é que brasileiros procurem estabilidade para "compensar" fatores que desestabilizam o cotidiano, como o receio da violência. "A estabilidade seria uma espécie de antídoto", resume.

Comim observa que a pesquisa ainda desmente o estereótipo de um brasileiro que busca constantemente o prazer. Na escala de valores, o prazer ocupa a sexta posição, abaixo da autonomia e da tradição. O trabalho procurou também diferenciar valores de acordo com sexo, escolaridade e faixa etária. Mulheres dão mais atenção a valores relacionados à conservação (como estabilidade social e tradição) e pouco se importam com autopromoção (relacionado ao poder e êxito pessoal). Para jovens ocorre o oposto: eles estão pouco ligados a valores ligados à conservação, mas dão muita importância para aqueles relacionados à autopromoção e a mudanças.

Violência. "Já os números obtidos sobre violência surpreendem. Levantamentos semelhantes feitos no passado mostravam que 70% dos brasileiros tinham a percepção de que a violência estava aumentando", comenta Flávio Comim. Ele observa que, em muitos dos locais analisados, a violência captada pelas estatísticas policiais não aumentou na mesma velocidade que a percepção dos entrevistados. "Talvez os números reflitam o impacto que a violência doméstica, muitas vezes invisível nos índices oficiais, vem apresentando na vida do brasileiro", completou.

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