Brasil testará coquetel antiaids preventivo

Recrutamento de 500 voluntários começará em agosto no Rio e em São Paulo

Lígia Formenti, O Estado de S.Paulo

05 de julho de 2013 | 02h01

Atualizado às 16 horas. BRASÍLIA - O uso de medicamentos antirretrovirais para prevenir a infecção por HIV - a chamada terapia pré-exposição - será testado no País. Um estudo coordenado pela Fundação Oswaldo Cruz, com participação da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo e do Centro de Referência e Treinamento DST-Aids, da Secretaria de Saúde de São Paulo, acompanhará, por um ano, 500 voluntários homens que fazem sexo com homens e travestis.

"O estudo avaliará como colocar em prática essa estratégia: a melhor forma de acompanhar a população que usa o medicamento, como preparar as equipes de saúde", disse a coordenadora da pesquisa, Beatriz Grinsztejn.

Os resultados podem ajudar a dar mais elementos para o governo avaliar a adoção da terapia no País. O Estado havia antecipado a intenção do diretor do Departamento de DST-Aids e Hepatites Virais, Fábio Mesquita, de avaliar a adoção da estratégia.

A eficácia da profilaxia pré-exposição já foi comprovada por vários estudos. Um deles teve participação de pesquisadores da Fiocruz, Universidade Federal do Rio de Janeiro e Universidade de São Paulo. Segundo os trabalhos, grupos que seguiram a terapia não se infectaram com o HIV. "A dúvida, agora, é como adotar a medida na saúde pública. Daí a necessidade de outros trabalhos", conta Beatriz.

A Organização Mundial da Saúde fez um apelo para que governos e instituições de pesquisa desenvolvam projetos que avaliem a terapia pré-exposição na rotina dos serviços de saúde. Os resultados ajudarão a definir a melhor forma de organização dos serviços para incorporar a tecnologia e como profissionais devem se preparar para identificar e orientar potenciais usuários da terapia.

Nos estudos realizados até agora os usuários da terapia pré-exposição de uma forma geral diminuíram as práticas de risco para o HIV. O projeto preparado no Brasil pretende avaliar também se essa tendência se mantém.

"Obviamente a indicação de medicamentos para prevenção do HIV não será para todos", afirmou a pesquisadora Valdileia Veloso, integrante do trabalho. O uso da terapia pré-exposição atualmente é imaginado para população de maior vulnerabilidade para a doença, como homens que fazem sexo com homens, usuários de drogas, profissionais do sexo.

A ideia é ofertar para esse grupo a possibilidade do uso do medicamento por um período. "Não imaginamos uma estratégia para a vida toda", completa Beatriz.

Valdileia e Beatriz avaliam que a oferta do tratamento não aumentaria o risco de a população em peso deixar de lado as relações sexuais protegidas com camisinha. "Se fosse assim, tal fenômeno já estaria sendo verificado com a oferta da terapia pós exposição."

No País, pessoas que têm relação sexual desprotegida de alto risco de contaminação por HIV podem encontrar nos serviços de referência de DST-Aids orientação e medicamentos para evitar a infecção. O recurso é usado em casos específicos. Quando isso ocorre, o antirretroviral atua como uma espécie de pílula do dia seguinte.

Voluntários. O recrutamento dos voluntários começará em agosto. Cartazes com inscrições "Um comprimido por dia pode prevenir HIV/Aids" serão espalhados por bares e locais frequentados por integrantes da comunidade gay.

Pessoas que integrarem o trabalho serão acompanhadas por uma equipe de médicos durante um ano. O medicamento usado, uma combinação de antirretrovirais, atualmente não é ofertado pelo Sistema Único de Saúde.

Mensagens serão enviadas para que lembrar da necessidade de não interromper o tratamento. "Voluntários também serão lembrados da necessidade de usar preservativos. O antirretroviral protege contra infecção por HIV, mas há outras DSTs, hepatites", lembra Beatriz.

A ideia é recrutar 300 pessoas no Rio e 200 em São Paulo - 100 delas serão acompanhadas no CRT e outras 100, na Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo.

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