Brasil recusa auxílio da ONU

Estados Unidos, Venezuela e Argentina estão entre os países que também ofereceram recursos ao governo

Jamil Chade, O Estado de S.Paulo

15 Janeiro 2011 | 00h00

O serviço humanitário da Organização das Nações Unidas (ONU) ofereceu ajuda ao Brasil e se colocou à disposição para auxiliar no resgate e atendimento à população após um dos piores desastres naturais da história do País. Mas, apesar de contatos diplomáticos, o governo brasileiro optou por não aceitar a participação da ONU nos trabalhos. Nos últimos anos, aceitar o envolvimento das Nações Unidas se transformou, na visão de vários governos, em certificado de incapacidade desses políticos de lidar com problemas domésticos.

Telegrama interno da ONU, obtido pelo Estado, entre a sede da entidade em Nova York e Genebra revelou que o Escritório das Nações Unidas para Assuntos Humanitários (conhecido pela sigla Ocha) passou os últimos dias em operações para se colocar apto para atuar na região serrana do Rio. O telegrama da sede da ONU ainda apontou como o representante da entidade no Rio de Janeiro havia sido contatado e indicava a mobilização da ONU para uma eventual intervenção.

Contatos diplomáticos também foram realizados entre a ONU e o governo brasileiro. A organização, porém, somente pode intervir se o país vítima de uma calamidade faz o pedido.

"Estamos prontos para ajudar, se o pedido pelo Brasil for feito", afirmou a porta-voz da ONU, Elisabeth Byrs. Ela confirmou que o pedido de ajuda "não foi transmitido" pelo governo brasileiro, uma maneira diplomática para dizer que a oferta de participação da ONU não foi aceita pelo governo brasileiro.

Em telegramas internos da entidade lidos pelo Estado, a ONU admite que "dificilmente" o Brasil faria um pedido de ajuda internacional. De acordo com a avaliação feita pela própria ONU, crises semelhantes no passado, ainda que com um número inferior de mortos, foram tratadas pelo governo brasileiro "com seus próprios recursos".

Soberania. A ocorrência de desastres naturais explicita de que maneira a cooperação internacional pode esbarrar em questões como a sensibilidade de governos à soberania nacional.

A ONU viveu um verdadeiro desafio político durante os primeiros dias de 2010, com o terremoto no Haiti. O país é um dos mais pobres do mundo e incapaz de lidar até com os problemas básicos da população. Soldados americanos desembarcaram com a função de socorrer os soterrados. Retiraram a bandeira do país do aeroporto de Porto Príncipe e a substituíram pela americana.

Brasil, Cuba, Venezuela e outros governos da região se apressaram em alertar que não se poderia violar a soberania do Haiti durante a operação de resgate e que o governo local precisava manter o controle da operação.

Outro exemplo de como a atuação internacional em um desastre pode ser delicada foi no terremoto do Chile, em 2010. O governo de Santiago não queria ser visto como um país incapaz de lidar com uma crise. Depois de longa negociação, a ONU foi obrigada a anunciar oficialmente que havia sido o governo do Chile que pedira ajuda e que Santiago administraria todo o trabalho. Mas o Estado obteve confirmação das Nações Unidas de que a entidade insistia na necessidade de envio de ajuda, antes do sinal verde de Santiago.

Em 2008, Mianmar rejeitou ajuda externa após o ciclone que arrasou o país, temendo que a cooperação ajudasse a acabar com um dos governos mais fechados do planeta.

Ajuda externa. A Embaixada dos Estados Unidos anunciou que o governo americano ofereceu US$ 100 mil em recursos para as vítimas das enchentes em São Paulo e no Rio. O embaixador dos EUA no Brasil, Thomas Shannon, anunciou que a verba será repassada à Agência Adventista de Desenvolvimento e Recursos Assistenciais e destina-se à aquisição de produtos de higiene, limpeza e roupas, já que os governos brasileiro e dos Estados já organizam o envio de alimentos e água.

O governo da presidente Cristina Kirchner anunciou sua disposição para auxiliar o Brasil. A chancelaria argentina indicou que o governo está pronto para "prestar ajuda imediata aos prejudicados pelas inundações".

A Embaixada da Venezuela divulgou nota na qual diz que o país prepara pacote de ajuda humanitária. O texto afirma ainda que o presidente Hugo Chávez se diz disposto a "colaborar para aliviar a situação". / COLABOROU ARIEL PALACIOS, CORRESPONDENTE

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