Brasil julga Abadía, que está nos EUA

Megatraficante entrou para o Programa de Proteção de Testemunha e desapareceu; antes, ele cumpria pena em prisão de Nova York

ALANA RIZZO / BRASÍLIA, O Estado de S.Paulo

04 Março 2012 | 03h03

Extraditado em agosto de 2008 para os Estados Unidos, Juan Carlos Ramirez Abadía, o maior traficante de drogas já preso no Brasil, volta a ser julgado em São Paulo na terça-feira. Só que o segundo homem mais procurado do mundo - perdia apenas para Osama Bin Laden quando foi detido - não voltará ao País. Ninguém sabe, aliás, onde está. No fim do ano passado, entrou no Programa de Proteção à Testemunha do governo americano. E sumiu.

Desde que deixou o Brasil, autoridades brasileiras afirmam que nunca receberam informações sobre o megatraficante que responde a uma dezena de crimes no País. Um acordo, assinado entre os governos brasileiro e americano, previa que Abadía entregasse à Justiça detalhes da organização criminosa e da atuação do cartel. Isso não aconteceu. Um registro detalhado sobre a atuação de Abadía só foi obtido agora, pelo Estado, com base em um perfil feito pelo governo americano. O documento tem mais de 400 páginas.

Também conhecido por "Mil Faces", por causa das dezenas de plásticas e reconstruções faciais, ele não tem mais nem endereço fixo para ser citado. O traficante cumpria pena em um presídio em Nova York. Agora, trocou o endereço certo pelo "esconderijo" do governo, ao fornecer informações sobre o narcotráfico.

O sumiço do chefão já provocou uma onda de boatos, incluindo a de que ele teria sido assassinado. E não foi a primeira vez que Abadía foi dado como "morto". Isso já havia ocorrido no voo que o levou de Manaus a Nova York. Agentes da polícia olharam para o traficante, quando dormia, e tiveram a impressão de que tinha morrido. Ele estava com os olhos virados e as narinas não mexiam. Mas era uma ilusão provocada pelas plásticas. O aspecto era de cadáver. A história, no entanto, estava longe de terminar.

Histórico. Os detalhes da história de um dos chefes do Cartel do Norte do Vale, que já esteve sob o comando de Pablo Escobar, permanecem desconhecidos. Os investigadores só descobriram um homem vaidoso, cujo leilão de bens atraiu milhares de pessoas, completamente apaixonado pela mulher e introspectivo. Mas detalhes até agora desconhecidos das investigações que levaram à prisão do colombiano mostram que a Polícia Federal chegou a ele quase por acaso.

A PF achou suspeito o fato de muitos colombianos estarem indo para o Ceará e descobriu que todos aguardavam a chegada de um casal, que desembarcou em Fortaleza a bordo de um veleiro. Durante três anos, a polícia seguiu o colombiano - sem ter a menor ideia de quem ele era.

Os investigadores conheciam detalhes íntimos da vida do casal, mas não conseguiam descobrir sua identidade. É que Abadía não deixava rastros. Passava esmalte nas pontas dos dedos para "eliminar" impressões digitais. Mais de dez identidades foram checadas, centenas de fotos analisadas, assim como registros médicos das cirurgias.

O traficante tinha mais de mil celulares. E foi aí que errou: um dia, usou o aparelho errado. A PF conseguiu grampear sua voz. A fita foi encaminhada para o Drug Enforcement Administration (DEA), o departamento antidrogas do governo americano, e rodou penitenciárias dos Estados Unidos. Em Miami, um preso chorou ao ouvir a voz: "É o Chupeta. Ele matou toda a minha família."

Ação internacional. Chupeta era o apelido de Abadía na Colômbia, que tinha outros nomes, como Olmedo e Yamileth. A partir daí, outros colombianos confirmaram sua identidade. O relatório obtido pelo Estado detalha melhor a atuação de Abadía. E mostra que o traficante era responsável por uma grande organização criminosa que traficava, lavava dinheiro e praticava diversos assassinatos.

O grupo operava em Nova York, Flórida e Califórnia, além da Colômbia e do México. Geralmente, a cocaína era transportada por caminhões ou aviões para cidades na costa da Colômbia, de onde ia em barcos para o México. O Cartel do Norte do Vale ainda usava a violência e a brutalidade: assassinava rivais e mantinha uma relação próxima com as Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (Farc). Abadía é acusado de 14 mortes nos EUA e 300 na Colômbia. Sua organização também teria tentado subornar autoridades colombianas.

Sobre o Brasil, não há detalhes. Sabe-se que ele veio para o País fugindo de um pedido de prisão dos Estados Unidos. Ele estudou as legislações internacionais e chegou à conclusão de que o Brasil era o melhor lugar para se esconder. Agora, está escondido de todos: nos EUA.

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