Brás leva a uma 'ponte aérea' SP-Andes

Sábado à noite e domingo são os únicos períodos livres para latinos da Bresser, que ainda jogam 'futebolim', mas com cabelo estilo Neymar

O Estado de S.Paulo

02 Outubro 2011 | 03h03

Pães de milho sobre bancadas nas calçadas, placas em espanhol, cartões telefônicos internacionais da "hola andina" e um onipresente cheiro de "pollo com papas" (frango com batatas fritas). É com esse cenário e aroma típicos de uma Calle Sagarnaga, do centro de La Paz, que o paulistano desavisado dá de cara quando dobra a esquina da Rua Bresser em direção à Rua Coimbra, no coração do Brás.

O teletransporte a que todos estão sujeitos, em uma ponte aérea São Paulo-Andes em dois segundos, é resultado de um onda migratória que já tem cerca de 30 anos. A presença boliviana nos bairros centrais da capital - além do Brás, também estão no Pari e no Bom Retiro - tem na Rua Coimbra e na Praça Kantuta, onde são realizadas as feiras típicas, a ponta mais visível.

Além de bolivianos, estão presentes também peruanos e paraguaios, em menor número. A maioria absoluta dos latino-americanos trabalha em confecções sob condições adversas, uma situação que é alvo de investigação do Ministério Público Estadual. Recentemente, uma onda de violência que deixou sete mortos também ganhou as páginas policiais, assustando e envergonhando as coletividades. Mas elas são bem mais do que isso.

São os rapazes já nascidos no Brasil, mas que jogam "futebolim" (pebolim, totó) com times representando The Strongest e Bolivar, agremiações bolivianas. Nos cabelos, porém, é o estilo de um brasileiro que faz sucesso: ostentam o moicano de Neymar.

Eles estão presentes também nas baladas onde o ritmo predominante é a cumbia. Músicas do cantor A.B. Quintanilla fazem sucesso e são cantadas por todos. São as noitadas de sábado em bares como Tropimix, no Pari, e El Español, no Brás. Em outras duas casas noturnas, é permitida a entrada apenas de bolivianos.

O sábado à noite e o domingo são os únicos períodos livres da semana para eles, que trabalham até as 18 horas diariamente. A falta de uma opção de lazer lança os jovens no consumo excessivo de álcool durante a folga. Já os paraguaios se reúnem no Clube Anhanguera, no Bom Retiro, e têm até uma associação em São Paulo, a Japayke ("despertemos", em guarani). O presidente é Porfírio Villar, de 26 anos. "Na faculdade, um dos meus melhores amigos é de Angola. É preciso criar leis para proteger os imigrantes."

Táxi. Traços andinos e um inconfundível sotaque paulistano. É Julian Callisaya, de 26 anos, transportando passageiros pelas ruas da capital. Ele nasceu no Brasil, três anos depois de seus pais deixarem La Paz para trabalhar em uma confecção comandada por coreanos em São Paulo, nos anos 1980. Hoje, a família é dona de uma oficina de costura. E o primeiro brasileiro dos Callisaya resolveu tocar sua vida em outro ramo: é taxista.

"Desde criança, meus pais me incentivaram a falar português. Quando você nasce e é criado aqui, frequenta as escolas, já está inserido na cultura. Não tem dificuldade", diz Julian. Como taxista, ainda leva a vantagem por ter a confiança dos bolivianos. "São detalhes que uso para chamar a clientela. Sou brasileiro, falo espanhol e tenho o traço andino." / WILLIAM CARDOSO, RODRIGO BRANCATELLI e FLÁVIA TAVARES

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