Botecos ''pés-sujos'' do Rio resistem às redes

Fãs de balcões de aço, carne assada na vitrine e garrafas com molho de pimenta encontram opções em vários bairros, da zona norte à zona sul

Bruno Boghossian, O Estado de S.Paulo

24 de outubro de 2010 | 00h00

Para alívio dos fãs dos botequins tradicionais, os balcões de aço, a carne assada exposta na vitrine e as garrafas de plástico com molho de pimenta resistiram à moda das mesas de mármore, à decoração moderna e aos cardápios sofisticados. Bares como o Bracarense, no Leblon, e o Pavão Azul, em Copacabana, já foram alvo da cobiça de donos de redes ou interessados em espalhar franquias pela cidade, mas decidiram manter casas únicas em nome da qualidade do chope, da boa comida e dos clientes fiéis.

Nos botecos clássicos, os chamados "pés-sujos", a chave do sucesso é evitar mudanças que assustem os frequentadores. "A ideia é manter sempre a estrutura de botequim. Se você começa a colocar outras coisas que não fazem parte desse mundo, você perde a sua identidade", avalia Vera Afonso, dona do Pavão Azul há 33 anos.

A empresária conta que já recusou ofertas para abrir casas com o mesmo nome em outros bairros da cidade e preferiu a singularidade: um espaço simples, com mesinhas de madeira nas calçadas, um fogão tradicional e bolinhos de bacalhau feitos à mão por uma só cozinheira. "Nesse ramo, se você cresce, você paga um preço, mas nós queremos manter tudo de forma artesanal. Eu até brinco: cliente do Pavão precisa ter paciência, porque é tudo feito na hora e demora um pouquinho", conta.

"Pés-limpos". Nos últimos seis anos, a expansão de redes de botequins na cidade opôs os defensores dos "pés-sujos" aos clientes dos novos "pés-limpos" - com seus cardápios bem cuidados, decoração padronizada, filiais espalhadas pela cidade, atendimento rápido e banheiros arrumados.

O crescimento de cadeias como o Informal e o Belmonte atingiu o auge em 2006 e chegou a enfrentar alguns sobressaltos, mas o modelo de negócios resistiu. Com um ambiente sofisticado aliado à decoração rústica, o Informal mantém 11 espaços no Rio, da zona norte à zona sul.

Já o Belmonte aposta em uma nova estratégia para se distanciar da imagem de padronização comum às cadeias de bares e restaurantes. O dono do grupo, Antônio Rodrigues, comprou o Bar do Belmiro, em Botafogo, mas vai manter o nome original do botequim - que vai passar por uma reforma total e ter seu cardápio renovado (mais informações nesta página). Mesmo sem abandonar décadas de história, os botecos tradicionais reconhecem a necessidade de renovação para não afastar frequentadores. Em 2003, o Bracarense passou por uma grande reforma, ganhando um toldo, banheiros novos e mesas de madeira, mas não perdeu balcão de aço e a clientela.

"Nossa filosofia é tradicional, mas a estrutura precisa ser a mais atual possível", explica Carlos Tomé, que comanda o bar ao lado do filho Cadu. "O que não podemos é perder a alma, substituir nossos chopeiros com 26 anos de casa só com o objetivo de maximizar o lucro."

A família já recusou ofertas pelo ponto onde o bar funciona e descarta abrir filiais em outras regiões da cidade, com o objetivo de manter o padrão de qualidade. "A gente não é maluco de rasgar dinheiro, mas quando há um conflito entre o moderno e o tradicional, prevalece sempre a tradição", diz Carlos.

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