Bortolotto permanece na UTI e se recupera bem, diz médico

Dramaturgo baleado durante assalto não sofreu complicações pós-operatórias comuns em casos de tal gravidade

estadao.com.br com Beth Nespoli, de O Estado de S. Paulo,

07 de dezembro de 2009 | 10h18

Ato público no espaço dos Parlapatões, onde ocorreu o crime, reuniu 400 pessoas no domingo

 

SÃO PAULO - O dramaturgo Mário Bortolotto, baleado no sábado, 5, em uma tentativa de assalto na Praça Roosevelt, em São Paulo, permanece internado na Unidade de Terapia Intensiva (UTI) da Santa Casa de Misericórdia nesta segunda-feira, 7. Seu estado de saúde é grave, mas ele apresenta boa recuperação, segundo o médico Vicente Dorgan Neto. Até agora, Bortolotto não sofreu nenhuma das temidas complicações pós-operatórias, comuns em casos de tal gravidade.    

 

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“Ele está indo muito bem”, disse Dorgan Neto ao Estado nesta segunda-feira. “Nada do que nos preocupava nesse período ocorreu até agora: arritmias, problemas respiratórios, sangramentos seriam intercorrências possíveis no seu caso, de muita gravidade ”, diz. “Ele não está fora de perigo, mas até agora todas as suas funções -, respiratória, cardíaca, renal - estão bem. Se essa dinâmica se mantiver, sua recuperação será satisfatória."

 

Segundo informações de amigos, Bortolotto já teria acordado. Na primeira vez, conseguiu fazer gestos de que o ombro lhe doía, e voltaram a sedá-lo. Num segundo momento, acordou, viu diante de si a filha Isabela Bortolotto, de 18 anos e, emocionado, agitou-se e tentou tirar o tubo respiratório, tendo sido novamente sedado. “Pode acontecer dele acordar por períodos curtos, pelo seu grau de sedação. O ideal é deixá-lo respirar por conta própria, mas essa sedação tem de ser reduzida lenta e gradativamente para evitar uma eventual agitação do paciente”, explica Dorgan Neto.

 

O desenhista e músico Henrique Figueroa, conhecido como Carcarah – que foi atingido na perna durante o assalto –, passa bem e deve ter alta nesta segunda-feira.

 

Reação simbólica

 

Na noite de domingo, 6, o grupo teatral Parlapatões realizou um ato público que reuniu cerca de 400 pessoas, entre artistas e políticos como Sérgio Mamberti, presidente da Funarte, Cacá Rosset, diretor e ator do grupo Ornitorrinco, o ator e diretor Celso Frateschi, do Teatro Ágora, o dramaturgo Mário Viana, o ator Gero Camilo, o dramaturgo e ator Marcos Caruso e o ator e diretor dos Parlapatões, Hugo Possolo.

 

"Nossa casa, nossa sala, foi invadida pela violência, como acontece numa casa de periferia ou numa condomínio da zona sul. Mas o teatro é um lugar de representação simbólica, então vamos reagir simbolicamente", afirmou Possolo. "Nosso contra-ataque não é pedir perseguição de bandidos. Vamos lutar pela presença da arte e da cidadania ocupando a cidade, a praça. Não queremos recuar, queremos a ocupação da arte transformadora integrando a comunidade", disse. 

 

Assaltos constantes

 

Os tiros que atingiram Bortolotto, de 47 anos, e Carcarah, de 30 anos, representaram o ápice da violência que há vários meses tem aumentado na Praça Roosevelt, no centro de São Paulo, segundo artistas e frequentadores do local. Eles afirmam que os furtos, roubos e brigas já eram constantes no lugar, mas sem registro de tiros ou de agressões contra as vítimas.

 

"O lugar pareceu ser mais seguro com a chegada da classe artística (há três anos), que tentou inserir a população, inclusive os moradores de rua", relata a atriz Guta Ruiz, que estava no dia do crime ao lado dos amigos e chegou a levar uma coronhada dos bandidos. "Mas a contrapartida em segurança não veio para quem está aqui."

 

O cenário do crime foi o bar que reúne em especial a classe artística após as apresentações de peças de teatro. De acordo com os frequentadores, a situação piorou após a tentativa de revitalização da chamada cracolândia - região na área central ocupada por viciados, a cerca de três quilômetros do local.

 

"Foi como se tivessem passado um espanador da cracolândia e espalhado os problemas", acredita a atriz Martha Nowill, que faz parte do elenco de Brutal, peça de autoria de Bortolotto. "Festeja-se muito a virada cultural, programas pontuais, mas e o dia a dia do teatro, como é que fica?", questionou o ator Jiddu Pinheiro. "Não adianta só maquiar o problema. Os artistas estão lá diariamente."

 

Desde abril de 2005, o governo municipal promete iniciar as obras de revitalização da Praça Roosevelt, uma reivindicação de artistas, moradores e frequentadores do espaço. O corte de quase R$ 5 bilhões feito pelo prefeito Gilberto Kassab (DEM) no Orçamento deste ano impediu o início o projeto, orçado em R$ 40 milhões. São necessárias ainda desapropriações de imóveis vizinhos.

 

A Boate Kilt, uma casa de shows de 515 metros quadrados na esquina da Rua Nestor Pestana, por exemplo, é um dos imóveis já declarados de utilidade pública, mas não há acordo entre a Prefeitura e o proprietário. "A praça continua servindo de refúgio para marginais e viciados. O dia em que esse miolo da praça for demolido, ele servirá de passagem para a Rua Augusta. Com essa parte ocupada pelas pessoas os marginais vão desaparecer", acredita o comerciante Renato Orbetelli, de 62 anos, que há 41 mantém uma tabacaria no lado par da praça. Ele diz que há duas décadas ouve falar que o local vai passar por uma revitalização. Desde agosto, o Hipermercado Extra que funciona na praça já foi assaltado duas vezes, segundo relato de comerciantes. "A violência aumentou muito aqui nos últimos meses", acrescenta Orbetelli.

 

O advogado Enrique Martí, argentino de 57 anos que mora há 27 em um apartamento na rua da praça, diz que cansou de ver pessoas serem assaltadas à luz do dia. "Esse pentágono de concreto usado de esconderijo pelos viciados precisa ser demolido. Já vi até homicídio de madrugada da minha janela", conta Martí.

 

Segundo as diretrizes do projeto de revitalização que deve ser iniciado em 2010 pela Empresa Municipal de Urbanização (Emurb), toda a estrutura acima do nível da praça será demolida, inclusive as rampas de acesso. No local, será instalado um "marco zero". Hoje, esse espaço é usado por usuários de crack.

 

Proprietária do Teatro Estúdio 184, fundado em 1997, Dulce Muniz, de 62 anos, diz que o clima de revitalização proporcionado pela presença das companhias de teatros e bares "é mentiroso". Ela diz que os assaltos aos pedestres e clientes da praça são constantes.

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