Borel: mais longe do asfalto, a vida piora

Após pacificação, estudo municipal divide morro em quatro níveis socioeconômicos

Felipe Werneck - O Estado de S. Paulo, O Estado de S.Paulo

21 de abril de 2011 | 00h00

RIO - A vida no Morro do Borel, na Tijuca, zona norte do Rio, representa uma fotografia da média das favelas cariocas, mas lá dentro existe grande diferenciação, com moradores de quatro níveis socioeconômicos. Embora o padrão seja relativamente melhor às margens dos principais acessos, há locais mais afastados, no topo do morro, de vulnerabilidade altíssima, com bolsões de pobreza extrema, áreas esquecidas pelo poder público.

 

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Isso conforme o consultor do Banco Mundial Francesco di Villarosa. O sociólogo coordenou, a pedido da prefeitura, estudo inédito que resultou no Mapa Participativo do Borel, instrumento que poderá facilitar o planejamento e a coordenação de ações integradas, ajudando a definir prioridades. A apresentação dos resultados - obtidos por trabalho de campo e entrevistas - ocorreu ontem, na Igreja Cristã Vida Renovada, no Terreirão, alto do morro.

O presidente do Instituto Pereira Passos, Ricardo Henriques, responsável pelo programa UPP Social, disse que o objetivo da pesquisa é permitir a identificação dos locais onde as ações públicas devem ser focadas. "Precisamos melhorar mais rápido as áreas em situação mais vulnerável, não só a média do território." O Borel, com cerca de 12 mil moradores, recebeu em junho de 2010 uma Unidade de Polícia Pacificadora (UPP).

A UPP Social é o prometido passo seguinte, após a expulsão de traficantes armados, com serviços como coleta de lixo, esgotamento sanitário e mais iluminação pública. Apesar de o Censo de 2000 apontar que 92% do Borel é atendido pela rede de esgoto, a realidade encontrada foi muito diferente. A rede não está funcionando e a maioria despeja resíduos no sistema de drenagem pluvial, por falta de alternativa. Ou seja, um problema que oficialmente seria secundário se torna prioritário. O consultor do Banco Mundial relatou ainda o passeio de ratazanas pela rede abandonada, que foi feita pelo programa Favela Bairro, "mas não teve manutenção adequada e se deteriorou".

Cemitério no caminho. A área mais crítica fica no alto da Ladeira do Moreira. Um dos acessos é feito por um caminho que foi usado como cemitério clandestino. Segundo Henriques, os governos "estão aprendendo a trabalhar em favelas", após mais de duas décadas de dominação pelo tráfico. "Se o poder público continuar só aprendendo, a gente não vai passar de ano nunca", comentou uma moradora.

Outra citou o problema do aumento do trânsito pós-pacificação. "Antes, taxista não subia por causa do tráfico. Agora, não consegue descer." O consultor do Banco Mundial emendou: "Por outro lado, os atropelamentos de moto acabaram após a regulamentação do transporte feita pela UPP." Preocupado com novas taxas, um morador afirmou que há "certa indisposição da Light de dialogar com a comunidade". "Não vamos conseguir sair de zero para cem."

Henriques se comprometeu a negociar "regras de transição". "Vai ser vital", disse ele. "Meu sonho é que a UPP Social acabe, que os serviços virem rotineiros. Infelizmente, não será rápido."

Com mapas específicos de acessibilidade e coleta de lixo, entre outros, o estudo foi financiado pelo Banco Mundial. É o primeiro desse tipo realizado em uma favela do Rio. A prefeitura informou que pretende concluir até o fim do ano o mapeamento em todas as UPPs.

FICHA TÉCNICA

Nome deriva de Irmãos Borel, dois franceses que tinham fábrica de cigarros no local.

Início da ocupação: 1922

Moradores: 12 mil

Habitações no bolsão de pobreza extrema, no alto: 30

Agentes de saúde responsáveis pela área: 16

Igrejas: 20

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